Milagre de Amor

Barbara Cartland


      
Coleo Barbara Cartland n 67

Publicado originalmente em:  1977
Ttulo original: "Love Locked In"
Copyright para a lngua portuguesa: 1983 
Abril S.A. Cultural e Industrial 
      
      
Digitalizao:  Palas Atenia
Reviso:  Judith Lima

Desde os nove anos de idade, Syrilla amava o belo duque de Savigne, que, em sua imaginao, era um herico cavaleiro de armadura dourada, lutando contra terrveis drages.  Agora, aos dezoito, ela sente que todos os seus sonhos de amor esto prestes a se tornar realidade:  o homem que adora quer que seja sua esposa! Vivendo tranqilamente no campo, com o pai, Syrilla no sabe da vida desregrada que Aristide de Savigne leva em Paris.  Nem que seu nome se tornou sinnimo de depravao e libertinagem.  O cavaleiro de armadura , na verdade, um cnico que no respeita nada nem ningum.  E que pretende abandonar a noiva depois da noite de npcias!

CAPTULO I
      
      
1832
      
      A duquesa de Savigne ergueu o olhar para o primo, Sua Eminncia o cardeal de Rochechant, sentado do outro lado da lareira, e perguntou, em voz trmula:
      - O que Aristide andou fazendo, agora?
      -  sobre isto que venho lhe falar, querida.
      - Foi o que imaginei! Sabia que voc no viria de Paris s para me visitar.
      O cardeal sorriu.
      - Isto no  muito amvel de sua parte. Como sabe, gosto de v-la, quando tenho tempo, mas achei que esta visita, hoje, era urgente.
      A duquesa cruzou as mos cheias de veias, com anis que pareciam pesados demais.
      - Diga-me a verdade, Xavier... Em que novo escndalo Aristide se meteu?
      - Quer mesmo saber a verdade?
      - Sei que vai revel-la, diga eu o que disser - respondeu a duquesa, com uma pontinha de humor. - Ento, quero ouvi-la, sem suas frases bonitas e sem que procure poupar meus sentimentos.
      O cardeal hesitou um pouco e depois disse, quase asperamente:
      - Aristide est enxovalhando o nome de Savigne e tornando-o sinnimo de tudo que  ultraje, escndalo e vcio.
      A duquesa respirou fundo, embora esperasse mais ou menos isso. Seus olhos estavam midos, quando disse ao primo, em voz apenas audvel:
      - Conte-me... tudo.
      Tinha sido uma mulher muito bonita, mas a sade precria deixara seu rosto enrugado; a pele era to plida, a ponto de parecer transparente. Era tambm muito magra, e o cardeal ficou chocado quando a viu, ao chegar ao castelo.
      Tinha considerado um dever vir de Paris pedir o auxlio da duquesa. Ningum melhor do que ele sabia o mal que aristocratas como o duque de Savigne causavam ao pas, naquele momento especial da histria da Frana com suas loucas extravagncias e festas exticas, que s causavam ressentimento e revolta.
      "O Terror Branco", aps Waterloo, foi insignificante, comparado com a Revoluo Vermelha de vinte e trs anos antes, em 1792. Mas a rebelio que houve dois anos antes, em 1830, deixou toda a nao apreensiva.
      Em sinal de protesto contra o papel reacionrio de Carlos X, Paris se revoltou, a Bolsa de Valores pegou fogo, o arsenal e o depsito de plvora de SALPETRIERE caram nas mos dos insurgentes. O Louvre e o Palcio das Tulherias foram tomados.
      As  tropas   invadiram   os  distritos  rebeldes,   mas   encontraram   a resistncia do povo nas ruas estreitas, onde lhes atiravam peas de moblia.
      Seis mil barricadas transformaram a maior parte de Paris num campo entrincheirado. O rei Carlos X foi obrigado a abdicar e o duque de Orlans, Lus-Felipe, descendente de Lus XIV, foi convidado a substitu-lo para restaurar a ordem.
      Isso dependia, em grande parte, de ganhar a confiana do povo, mas a atitude e o comportamento de membros do antigo regime, como o duque de Savigne, tornavam as coisas difceis.
      A duquesa esperava, e dali a um momento o cardeal continuou:
      - No so apenas as orgias que Aristide d, promove, ou nas quais toma parte todas as noites, como tambm as amantes que exibe em Paris e os presentes extravagantes que lhes d, que provocam revolta e inquietao naqueles que esto praticamente morrendo de fome.
      - Voc tem medo de um recrudescimento de violncia? - perguntou a duquesa, vivamente.
      - Sempre h uma chance de que irrompa novamente. Acho que, para impedir tal exploso,  essencial que os nobres que voltaram para seus castelos, para suas terras e para seus lugares de direito na sociedade dem exemplo para aqueles que sofreram to amargamente nos ltimos dezesseis anos.
      - Tem razo,  Xavier,  claro  que tem  razo.  Falou  a Aristide sobre isso?
      O cardeal deu uma risadinha amarga.
      - Minha querida Louise, acha que me daria ouvidos? Ele disse inmeras vezes, e em pblico, que a religio est fora de moda. Se foi uma vez  missa nos ltimos dez anos,  novidade para mim!
      A duquesa escondeu o rosto nas mos trmulas.
      - Como isto foi acontecer, logo para o meu filho? - murmurou.
      - Creio que tudo tem origem naquele infeliz episdio da vida dele.
      A duquesa no respondeu. Estavam ambos pensando na tragdia que sombreara a mocidade de Aristide e transformara o rapaz encantador e alegre num cnico que gradualmente se tornara um reacionrio amargo.
      - Tem havido um escndalo atrs do outro - disse o cardeal, dali a um momento. - H duas semanas, uma jovem, conhecida nos meios teatrais, embora eu hesite em cham-la de atriz, tentou se suicidar.
      A duquesa teve uma exclamao de horror, mas o cardeal continuou:
      - Ela deu uma declarao, que saiu em todos os jornais, dizendo que a causa de sua desgraa foi o comportamento de Aristide para com ela.
      - Foi amante dele?
      - Uma, entre uma dzia. Parece que ele a despediu de um modo um tanto cruel e ela achou, que Deus a ajude!, que a vida nada valia sem ele.
      - Mulheres... sempre mulheres!
      O cardeal ficou em silncio durante alguns segundos e depois disse:
      - Aristide est com trinta anos.  hora de casar e ter um herdeiro. 
      A duquesa fitou-o, sobressaltada.
      - Sabe to bem como eu, Louise, que, se no houver um herdeiro direto, o ttulo e as propriedades iro para aquele primo idoso que vive em Montmartre com os artistas e diz claramente que  republicano e contrrio no s a ttulos de nobreza como tambm a propriedades pessoais.
      A duquesa deu um pequeno gemido, e o cardeal continuou:
      - S Deus sabe o que acontecer s propriedades, se ele as herdar.
      - Aristide sabe disso?
      - Claro que sabe! Mas francamente, no liga a mnima! - Em tom mais spero, comentou: - No creio que ligue para coisa alguma, ultimamente, nem mesmo para as mulheres que pega num impulso e das quais se descarta sem a mnima considerao, assim que o aborrecem. E Aristide se aborrece facilmente!
      - Como  que poderamos... convenc-lo a casar? E, mesmo que consentisse... adiantaria?
      - No tenho a mnima idia - respondeu o cardeal. - Francamente, acho que seria uma soluo e que o manteria longe de Paris. A notoriedade que ele atrai  que causa tanto mal. Ele  notcia, Louise, e voc sabe o que isto significa para a imprensa sensacionalista.
      A duquesa suspirou.
      - Sempre rezo para que Aristide case e me d um neto. Ou antes, muitos netos. Sempre lamentei s poder ter tido um filho.
      - Pelo menos, Lon morreu feliz, sabendo que tinha um herdeiro - disse o cardeal,  guisa de consolo.
      - Ele no ficaria muito feliz, se pudesse ver o filho, agora.
      -  por isso, Louise, que temos que fazer alguma coisa.
      - Voc vai falar com ele sobre o casamento? O cardeal sacudiu a cabea.
      - No. Voc  quem deve falar.
      Levantou da cadeira de espaldar alto e se dirigiu para a janela. Enquanto caminhava pelo tapete Savonnerie, o sol penetrava pela janela, iluminando os objetos preciosos que adornavam o castelo.
      Por um milagre, o Castelo Savigne escapara da devastao do terror de 1793. Ao contrrio do que acontecera com os castelos da vizinhana, no tinha sido saqueado. O av do atual duque teve a viso de remover os tesouros que tinham passado de gerao em gerao, levando-os para um lugar seguro, onde os revolucionrios nunca os acharam.
      Agora, estavam de novo no castelo, que, na opinio do cardeal, era um dos mais belos da Frana.
      Talvez ele fosse parcial, mas amava o Castelo Savigne, conhecendo-o desde que sua linda prima Louise casou com o duque reinante.
      Olhou agora para o imenso parque, com os veadinhos passeando sob as rvores, vendo ao longe o brilho prateado do Loire, serpenteando pelo campo.
      Havia grandes castelos de ambos os lados do rio e muitos outros nas vizinhanas.
      Durante o sculo XV, quando foi expulso de Paris pelos ingleses, Carlos VII passou grande parte do tempo em Tours e nos castelos dos distritos vizinhos. Seu amor pela provncia de Touraine foi partilhado pela maioria de seus sucessores ao trono, nos dois sculos seguintes. A presena freqente do rei no vale do Loire levou os nobres da corte a seguirem o exemplo real.
      Por este motivo, inmeros castelos se agruparam nas margens do rio e de seus afluentes. Muitos tinham comeado sua histria como fortalezas medievais, mas, com o advento da Renascena, se transformaram em obras-primas da arquitetura contempornea, bonita e elaborada, fazendo com que todos os que viam essas obras se encantassem com as maravilhas daquela parte da Frana.
      Agora, os donos, que haviam fugido na poca da revoluo, tinham voltado para suas casas, para p-las em ordem, muitos tendo dificuldades em redecorar e remobiliar completamente os aposentos enormes, vazios, saqueados.
      Mas o cardeal achava que, fosse qual fosse o esforo, valia a pena. E que, se todos se davam a tanto trabalho, por que o duque de Savigne no lhes seguia o exemplo?
      Percebeu que a duquesa esperava e saiu da janela, voltando para perto dela.
      -- S h uma pessoa, Louise, que pode fazer com que Aristide compreenda o que ele deve fazer. E esta pessoa  voc!
      - Mas como? Por que iria ele me ouvir? H muitos anos que no me ouve mais.
      - Tenho a impresso, embora talvez me engane, de que ele ainda gosta de voc,  sua moda. Se ele pensar que est  morte, Louise, talvez crie juzo.
      -  morte?
      Os olhos de ambos se encontraram. Dali a um momento, o cardeal aproximou uma cadeira da dela e sentou.
      - Escute aqui, Louise... 
      
      A festa, que tinha comeado muito convencional, estava esquentando.
      O jantar maravilhoso, para cinqenta pessoas, fez com que os convidados se tornassem muito alegres e barulhentos, corados e excitados.
      As mulheres agiam agora mais livremente, mostrando-se tentadoras, de um modo voluptuoso que seus companheiros achavam irresistvel.
       cabeceira da mesa, sentando numa cadeira de espaldar alto com as armas de sua Casa, o duque de Savigne inclinou-se para a frente, observando os convidados com expresso enigmtica.
      Aqueles que o conheciam bem, muitas vezes se admiravam por ver como conseguia, enquanto se divertia, parecer ao mesmo tempo isolado e desinteressado de tudo  sua volta.
      Estava sentado entre duas mulheres bonitas, famosas por seus encantos. Ambas murmuravam em seus ouvidos, exibindo, ao inclinar-se, os decotes exagerados.
      Os risos se tornaram mais altos, mas logo foram abafados pela msica no outro lado do salo de banquete.
      A manso do duque, nos Champs Elyses, era uma das maiores e mais imponentes de Paris. Poucas pessoas passavam por ali sem olhar com curiosidade para as grades de pontas douradas, ficando a imaginar o que se passaria nos vastos aposentos descritos quase diariamente por reprteres vidos de notcias escandalosas sobre o que se passava l dentro.
      A festa de hoje, conforme alguns nobres presentes achavam, com certa apreenso, seria descrita pormenorizada em Le Figaro e em Le Temps. Muitos esperavam, ardentemente, que seus nomes no fossem mencionados, mas, naqueles dias, era difcil saber quem estava a soldo da imprensa. Era bem possvel que a pessoa que desse as notcias aos reprteres fosse algum da famlia.
      - Tenho uma coisa a lhe dizer, monsieur le duc - disse a mulher  direita do dono da casa, com um trejeito de lbios... -  uma maldade, mas voc vai rir.
      - Estou escutando - respondeu o duque, languidamente.
      - No lhe d ouvidos - interrompeu a mulher sentada do outro lado. - Ela vai lhe falar a meu respeito, e juro que no  verdade. Prometa no acreditar!
      - Como  que posso prometer, se ainda no sei o que ?
      - Garanto-lhe que no  verdade e o que Aimie no sabe, inventa!
      -  melhor deixar que eu seja o juiz - disse o duque.
      - Por que no? - replicou Rosette. - Espero que me julgue inocente.
      Olhou para ele com expresso provocante, e o duque sorriu, cnico.
      - Duvido que algum possa achar isto, Rosette. Em todo caso, estou sempre pronto a ouvir essa coisa m que dizem que voc fez.
      - Vou lhe contar - disse Aimie, satisfeita.
      Inclinou-se para falar ao ouvido dele. Nesse momento, vrios pares se levantaram para danar.
      A dana, ou o que chamavam assim, era uma coisa escandalosa, mais apropriada para um cabar do que para uma manso dos Champs Elyses.
      As pessoas que no danavam estavam interessadas em si mesmas, e agora os vestidos das senhoras escorregavam dos ombros e os homens desabotoavam seus coletes.
      Os criados; Sorrio que obedecendo a uma ordem prvia, apagavam as luzes dos candelabros, deixando acesos apenas os castiais sobre a mesa e as arandelas.
      Nisto, as duas mulheres que falavam to intimamente com o duque foram perturbadas por outra criatura vistosa, de olhos brilhantes e cabelos negros, uma beldade que eletrizou Paris, quando apareceu no Thtre des Verits.
      Tendo chegado tarde, aps sua representao no teatro, havia sido obrigada a se sentar, no ao lado do duque, conforme esperava, mas na ponta da mesa.
      Agora, aproximou-se e o duque percebeu, pela expresso dos olhos flamejantes, que estava disposta a lutar por suas atenes.
      - Monsieur! Est me desprezando! - disse ela, com uma voz aparentemente doce, mas onde havia uma frieza de ao.
      - No poderia fazer isto por muito tempo, Suzanne.
      - Ento, afaste cette canaille e me d um pouco de ateno.
      Aimie e Rosette olharam para ela com hostilidade, mas Suzanne continuou:
      - Ser que elas tm alguma coisa para lhe oferecer, a voc que procura a perfeio e se gaba de ser um conhecedor?
      O duque parecia estar se divertindo, mas nada disse.
      - Se voc se guiasse pela opinio de Paris, no haveria dvida sobre a quem daria o primeiro lugar - disse Suzanne.
      - Pode ser esta a sua opinio, mas no  a nossa - respondeu Aimie, asperamente.
      Suzanne olhou-as de alto a baixo, com desprezo.
      - Est se intrometendo, Suzanne -- disse Rosette. - Estamos divertindo monsieur e no  muito agradvel para ele ou para ns ouvirmos voc se pavonear como um galo vaidoso.
      A outra assumiu uma atitude ao mesmo tempo dramtica e agressiva. Olhou para o duque, com ar desafiador.
      - A escolha  sua, monsieur - disse, com um convite na voz. Aimie e Rosette tambm olharam para ele, e no havia dvida de que as trs mulheres esperavam por seu veredito.
      - Se meus conhecimentos de mitologia no me falham, quando pediram a Paris que pronunciasse seu julgamento entre as deusas, elas exibiram todos os seus encantos - disse o duque.
      Houve silncio. Depois, com um risinho, Suzanne abaixou o vestido nos ombros; dali a um momento, as outras duas lhe seguiram o exemplo.
      O duque ficou imvel e disse, languidamente:
      - E o prmio ser... ?
      - Passar a noite com voc,  claro - respondeu Suzanne. Novo silncio, enquanto ele olhava para as trs mulheres, cada qual vaidosamente certa de que seria a vencedora.
      No havia, na realidade, muita diferena entre elas. Talvez a cintura de Suzanne fosse mais fina, mas suas coxas eram mais grossas do que as de Rosette. E os seios de Aimie, mais volumosos.
      Finalmente, o duque disse, em tom divertido:
      - A nica deciso diplomtica que posso tomar  dividir o prmio em partes iguais. Felizmente, minha cama  bastante larga!
      Houve exclamaes de espanto, mas obviamente as trs senhoras aceitaram a sugesto.
      O duque olhou para os convidados e percebeu que estava acontecendo aquilo que os jornais sem dvida iriam qualificar de "orgia extica", lembrando o que antigamente acontecia em Roma.
      Puxando o vestido para cima e segurando-o sobre o peito, Suzanne inclinou-se para o duque.
      - Por que estamos esperando? - perguntou. Olhou-a e disse, com um trejeito nos lbios:
      - Est  impaciente,  Suzanne,  mas a verdade  que sempre foi, assim.
      - Estou impaciente por voc. E quero mostrar a essas ratinhas dos esgotos que so estpidas e ignorantes, quando se trata da arte do amor.
      O duque ia responder, quando um lacaio de cabeleira empoada, com a libre vermelha e dourada da Casa de Savigne, se aproximou.
      - Isto veio por mensageiro especial, senhor - disse, entregando ao patro uma carta, numa salva de prata.
      Aristide olhou a carta com ar indiferente e ia despedir o lacaio, quando este informou:
      - O homem veio do Castelo Savigne, monsieur. O duque endireitou-se na cadeira e pegou a carta. Abriu-a, leu e levantou.
      Sem uma palavra para as trs mulheres que esperavam suas ordens, sem nem mesmo olhar para elas, dirigiu-se para a porta, seguido pelo lacaio.
      
      Seguindo pelas estradas speras, Sua Eminncia o cardeal de Rochechant ia pensando, como tantas vezes, que no havia ainda mais belo do que aquilo que era conhecido como o Jardim da Frana. No era s os castelos que impressionavam, mas a brisa do Atlntico penetrava at Tours, que ficava a uns duzentos quilmetros do mar, e criava condies de vida raramente encontradas no interior. Devido  configurao do vale, largo e frtil, era tambm chamado de o Sorriso da Frana, sorriso que lembrava o da Mona Lisa.
      O nome tinha sua razo de ser, pois Leonardo da Vinci havia passado os dois ltimos anos de sua vida no vale do Loire, num castelo pequeno, perto de Amboise.
      Desde ento, durante sculos, tinha havido mais romances nas margens do Loire do que de qualquer outro rio do mundo.
      O cardeal refletiu que logo os meses secos do vero iriam dividir as guas em vrios riachos, que correriam entre bancos de areia e ilhotas estreitas. Ficariam cobertos pelo emaranhado de salgueiros verdes que se davam bem naquele solo mido.
      Os pequenos vinhedos das encostas suaves produziam vinhos leves e deliciosos, que o cardeal apreciava mais do que os vinhos ricos de outros distritos.
      Mas, naquele momento, no estava interessado pela beleza do vale do Loire, e, sim, pela notcia que tinha recebido de manh.
      A notcia chegou ao Castelo de Blois, onde estava hospedado, tendo atrasado deliberadamente sua volta para Paris, at receber da duquesa a informao que esperava.
      Em certa poca, Blois tinha sido uma residncia real, e o cardeal se sentia muito confortvel ali, mas agora no podia pensar em mais nada, a no ser no drama que sabia que se desenrolava no Castelo Savigne.
      Tinha quase certeza de que, ao receber a carta da me, o duque sara de Paris o mais depressa possvel, para ir ao encontro da duquesa.
      Ela escreveu exatamente a carta que o cardeal sugeriu.
      
      "12 de maio de 1852, Castelo Savigne
      
      Meu querido filho
      Estou doente e sinto que no ficarei muito tempo mais neste mundo. Peo-lhe que.venha me visitar o mais depressa possvel, pois  no posso suportar a idia de morrer sem ver seu querido rosto mais uma vez e sem ouvir sua voz.
      Se no lhe convier sair de Paris neste momento, peo-lhe que me perdoe, mas meu corao anseia por voc e pedirei a Deus que permita que eu fique neste mundo o tempo suficiente para segur-lo mais uma vez em meus braos, meu filho, at que Ele me leve.
      
      De sua me amorosa,
      Louise de Savigne"
      
      O duque no esperou pela carruagem, nem pela comitiva composta de inmeros lacaios e criados pessoais com os quais viajava como se pertencesse  realeza. Acompanhado apenas por seu procurador e por dois criados, saiu de Paris de madrugada e se dirigiu para o castelo.
      O procurador do duque era, na realidade, um amigo pessoal, um dos poucos admitidos  sua intimidade: Pierre de Bethume, o filho mais moo de um nobre falecido e que perdera tudo que possua durante a revoluo.
      O duque, que o conhecia desde menino, encontrou-o levando uma existncia precria nos mais srdidos pontos noturnos de Paris e lhe ofereceu um emprego em sua casa.
      Pierre retribua com uma dedicao que surpreendia os outros conhecidos do duque, tornando-se companheiro assduo, assim como confidente.
      Cavalgaram depressa e em silncio durante algum tempo. Depois, voltando-se para o patro e amigo, Pierre disse, com um sorriso:
      - Isto afasta as teias de aranha, no , monsieur?
      -  o que tambm acho.
      A madrugada surgia, dourando os campos. Se achou isto diferente da desordem de um quarto cheio de roupas femininas, aps uma noite dissoluta, o duque nada disse.
      Pierre achou que algumas rugas de dissipao do rosto do amigo estavam menos acentuadas. Talvez fosse o efeito do amanhecer; o duque no parecia to entediado, nem to cnico, como de costume.
      - Sabe, monsieur, que esta  a primeira vez que vou ao Castelo Savigne?
      - A primeira vez? Pois bem, vamos ver qual ser sua impresso.  um barraco imenso, mas creio que tem um certo encanto. - E nada mais disse a respeito.
      Depois de cavalgarem o dia inteiro, ficaram numa hospedaria pequena e pouco confortvel, que lhes serviu um jantar sem graa, embora o vinho fosse bom. Terminada a refeio, Pierre de Bethume comeou a falar do castelo.
      - Por que vai l to raramente, monsieur?
      - Creio que  bvio: porque me aborrece!
      - Isto me surpreende. Voc gosta de montar, e quem  que pode montar com conforto em Paris? E creio, embora nunca me tenha falado sobre isso, que gosta do campo.
      - E muito cacete - respondeu o duque, secamente. - Terrivelmente cacete. E voc sabe, Pierre, que a nica coisa que procuro evitar  o tdio.
      - Fale-me de seu lar.
      - O que deseja saber? Que tem torres e torrees, que fica numa situao protegida, que o jardim est cheio de palmeiras, que Lus XVI dormiu l e que seu quarto, que agora  o meu, permaneceu o mesmo?
      - Parece fascinante. Embora voc no confesse, creio que gostava muito de l, quando jovem.
      O duque ficou imvel por um momento.
      - Faz tanto tempo, que no me lembro mais.
      Mas Pierre sabia que ele estava mentindo.
      Chegaram a Savigne de manh cedo, e Pierre achou que o duque tinha razo ao descrever a casa. Nunca vira nada to atraente como o grande castelo com seus jardins descendo at o rio e os telhados e as chamins delineando-se contra o cu azul.
      O duque foi at a porta da frente, onde os cavalarios pegaram seu cavalo, e depois subiu a escada larga, por entre a fileira de criados que se inclinavam  sua passagem.
      - Permita-me que lhe d as boas-vindas, monsieur le duc - disse o administrador da propriedade.
      - Leve-me  presena de madame Ia duchese - ordenou. O administrador foi na frente, subindo a escada curva e entalhada e depois seguindo ao longo do corredor, at a ala sul, onde ficavam os aposentos da duquesa desde que ela enviuvara.
      Uma criada abriu a porta, fazendo reverncia, e o duque entrou, tirando as luvas.
      A duquesa estava deitada numa cama larga, de dossel. Parecia muito frgil no meio dos travesseiros rendados, com uma coberta de arminho. Estava muito plida.
      - Meu filho!
      Estendeu-lhe as mos. O duque tomou-as e beijou-as de leve. Assim como o cardeal, ficou chocado com a diferena na aparncia dela, desde a ltima vez em que a vira, achando que parecia etrea. 
      - Vim assim que recebi sua carta, mame.
      - Obrigada, meu querido. Tenho rezado para que voc chegasse... a tempo.
      - Tem visto os melhores mdicos? No podem fazer nada por voc?
      - Nada, querido. Mas, no se entristea. Logo estarei com seu pai, como desejei desde que ele me deixou.
      O duque apertou as mos dela. 
      A empregada saiu, fechou a porta, e eles ficaram a ss.
      - H uma coisa que quero lhe pedir - disse a me, em voz baixa. - Apenas uma coisa... Aristide... antes de morrer.
      - O que  mame?
      Havia no rosto dele uma expresso que contou  duquesa que adivinhava o que ela ia dizer.
      - No posso morrer em paz... a no ser que saiba que... a sucesso est... garantida.
      O duque ficou de respirao suspensa.
      - Est na hora de voc casar, meu filho querido. O que mais desejo na vida ... segurar nos braos um filho seu.
      -  impossvel, mame!
      - Por qu?
      Ele no respondeu, e ela disse, em voz trmula:
      - Oh, Aristide, voc era um menino to bom, to meigo, e ns o amvamos tanto... seu pai e eu. - Apertou as mos do filho e continuou: - Depois que cresceu, tnhamos tanto orgulho de nosso filho! Era inteligente, forte, atltico, e tudo isto encantava seu pai.
      O duque moveu-se, inquieto.
      - Depois, voc mudou. O filho que ns conhecamos e amvamos foi embora. Muitas vezes agradeci a Deus por seu pai no estar aqui para ver sua transformao.
      - No h nada que se possa fazer a este respeito, mame. Sou como sou e estou satisfeito assim.
      -  verdade?
      Ao dizer isto, a duquesa olhou para as rugas que j se delineavam do nariz  boca e para as olheiras causadas pela vida desregrada. Pensou, desesperada, que tinha havido uma poca em que ele era o rapaz mais bonito de toda a Frana.
      Agora, parecia mais velho do que a idade que tinha e um homem que havia bebido a taa da amargura.
      - Por favor, Aristide... - pediu, baixinho.
      Ele levantou e se afastou da cama,
      Na parede oposta, havia uma poro de miniaturas, todas pintadas com arte e delicadeza, representando os duques de Savigne de todos os sculos. Eram homens bonitos; principalmente o pai de Aristide, de feies muito parecidas com as dele, mas com uma nobreza que faltava ao filho.
      O rapaz ficou de costas para a cama, e a duquesa fechou os olhos desconsolada. Sabia que tinha fracassado. O cardeal estava enganado: Aristide no se importava mais com ela. Entre eles no havia nem mesmo a afeio natural entre me e filho.
      Quero morrer, pensou com sinceridade. Vou morrer, porque nada mais h para me animar a viver.
      Durante todos os dias de dor e de desconforto, principalmente no inverno, a idia que a mantinha viva era esperar que um dia o filho voltasse. Que um dia viesse morar no castelo, e os corredores, agora vazios, criariam vida e os aposentos grandes se encheriam de vozes e risos infantis.
      Agora, sabia que isto era apenas um sonho que no se tornaria realidade: uma fantasia criada pela imaginao de uma mulher doente.
      O duque acabou de examinar os retratos de famlia que brilhavam contra o damasco azul da parede, as molduras cravejadas de pedras reluzindo ao sol.
      Voltou para perto da cama e olhou para a duquesa.
      Ela no abriu os olhos. Vendo-a to imvel, o filho teve medo de que estivesse morta!                           
      - Mame!
      Era um chamado, um chamado urgente, e ela abriu os olhos, tristemente.
      - Vou fazer o que me pede, mame!
      - Aristide... est falando srio?
      - Sim, se isto a fizer feliz.
      - Voc sabe que nada me faria mais feliz.
      - Ento, isto compensar todo o tdio e a depresso que vai me causar.
      - Obrigada, querido. Agora, tenho algo por que viver, embora no creia que v viver muito mais.
      - Tem que viver, porque a idia  sua e vou deixar tudo nas suas mos.
      A duquesa sobressaltou-se.
      - Quer dizer que... ?
      - Quero dizer que, pessoalmente, no tomarei nenhuma iniciativa. Escolha minha mulher voc mesma. Tenho certeza de que escolher uma jovem adequada. Arranje o casamento. Virei para c, para casar na capela e ficar devidamente preso pelos laos do santo matrimnio. Voc no estaria em condies de viajar.
      - Mas Aristide...!
      - So estas as minhas condies. No quero conhecer a moa e no quero ter nada a ver com ela, at estarmos casados. Depois, ficarei aqui o tempo suficiente para gerar o neto que voc tanto deseja.
      - Mas meu querido...
      - No quero discutir sobre isto. Conseguiu o que queria, mame, e acho que tinha certeza de que o conseguiria. Contente-se com isto.
      A duquesa estendeu a mo para pegar nele. - Quero que seja feliz - disse, baixinho. O duque torceu os lbios.
      - Foi para isto que me chamou aqui?
      - Acho que o casamento lhe trar felicidade. Sabe que seu pai e eu fomos muito felizes.
      - Mas no sou como meu pai e nunca serei. E duvido que encontre para mim uma esposa encantadora e bonita como voc, mame.
      - Vou tentar, meu bem, vou tentar. Mas ser difcil, se no me ajudar e no procurar se mostrar agradvel.
      - Creio que minha mulher, quando eu tiver uma, no me achar de todo desagradvel - disse, zombeteiro. - H inmeras mulheres que parecem apreciar minha companhia.
      - Que espcie de mulheres?
      O duque beijou a mo dela.      
      - Fizemos um acordo, voc e eu, mame, e no quero mais falar sobre isto. Agora, se me der licena, vou tomar banho e trocar de roupa.
      - Estou muito grata por ter vindo, quando precisei de voc.
      - Tenho a impresso de que est mais forte do que aparenta. Sua fora de vontade, em todo caso, no diminuiu!
      - Quero a sua felicidade - repetiu a duquesa.
      - Fico imaginando o que significa felicidade. H tanto tempo que no sinto isto, que no sei como reconhecer tal emoo.
      - Ah, Aristide...
      A voz da me quebrou-se num soluo e o duque disse, vivamente:
      - Estamos ficando terrivelmente sentimentais! Faa seus planos, mame, e, como j lhe prometi, concordarei com eles. No vamos mais falar neste assunto.
      Olhou-a por um momento, inclinou-se e beijou-lhe a face.
      - Continue viva, mame. Tenho a impresso de que Savigne desmoronar quando voc no estiver mais aqui.
      Saiu do quarto. A duquesa reclinou-se nos travesseiros, exausta. O cardeal tinha razo! Aristide ainda gostava dela.
      Foi uma vitria mais rpida do que imaginara. Apesar disto, estava apreensiva.
      Que mulher iria consider-lo um marido adequado, na disposio de esprito em que Aristide se achava?
      A duquesa no deixou de perceber a amargura oculta, a ironia e o cinismo da voz dele, quando prometeu fazer o que ela pedia. Depois, achou que s o que importava era ele ter um herdeiro.
      Encarou o fato de Aristide, .terminada a lua-de-mel, voltar para a vida que levava em Paris.
      Duvidava, por mais otimista que o cardeal se mostrasse, de que uma esposa, ou mesmo uma famlia, o transformasse num respeitvel senhor rural, dirigindo propriedade, como o rei e o novo regime achavam desejvel.
      Por outro lado, o primeiro passo havia sido dado: Aristide concordara em casar. A questo agora era arranjar-lhe uma noiva.
      A duquesa estendeu a mo para a campainha de ouro a seu lado. A porta se abriu quase que imediatamente e uma de suas criadas particulares apareceu.
      - Traga meu papel de carta, tinteiro e pena. E mande um de nossos cavalarios se aprontar para levar um recado imediatamente a Sua Eminncia o cardeal, em Blois.
      A empregada fez a reverncia,
      - Sim, madame.
      O cardeal vai ficar encantado! - pensou a duquesa.
      Quando ele lhe sugeriu o que devia fazer e dizer, ela achou que seu otimismo era infundado e que Aristide no concordaria. Mas, ele viera imediatamente, cavalgando o dia todo, acreditando que a me estava  morte, mostrou-se disposto a sacrificar sua liberdade.
      Que Deus o ajude! Que Deus ajude a meu filho!
      Era uma orao que repetia h anos. E j comeava a pensar que Deus no se interessava por suas preces.
      Agora, tudo havia mudado. Quando a criada voltou, ela sentou na cama e comeou a escrever...
      
      Na carruagem, o cardeal abriu a carta da duquesa e leu novamente.
      Mal podia acreditar que Aristide tinha dado autorizao  me para escolher sua noiva e que nem mesmo queria conhec-la! Mas estava escrito ali, escrito na bonita letra de Louise.
      Tirou do bolso de suas vestes rubras um pedao de papel onde ele e a duquesa haviam escrito os nomes das noivas elegveis para o duque.
      Enquanto estava no castelo Blois, o cardeal aproveitou a oportunidade para, discretamente, sondar seu anfitrio sobre as moas cujos nomes haviam anotado.
      Escolheu as palavras com cuidado.
      - Costuma ver o duque de Foucauld-Fleury? - perguntou.
      - Ele e a famlia vm sempre aqui.
      - Quer dizer que tem uma famlia grande?
      - Sim, tem, mas muitos so casados.
      - Sim, eu me lembro. O filho fez um casamento excelente. Creio que conheci sua esposa, em Paris - disse o cardeal.
      - S um dos sete filhos do duque ainda est solteiro. Na verdade uma filha.
      - Creio que ouvi dizer que se chama Isabelle - murmurou o cardeal, em tom um tanto vago.
      - Sua Eminncia tem razo. Uma jovem atraente. Admiro-me de ainda estar solteira, mas parece que o rapaz de quem estava quase noiva h trs anos morreu num acidente.
      - Foi uma pena.
      - De fato. Mas espero que o duque logo encontre outro noivo para ela.                                                                                              
      O cardeal mudou de assunto. Descobrira o que queria saber.
      Mais tarde, perguntou ao dono da casa sobre o marqus d'Urville, e ficou sabendo que sua filha, Henriette, tinha dezoito anos e era considerada uma beleza.
      Havia apenas mais um nome na lista, mas o cardeal no lhe deu importncia, porque, tanto ele quanto a duquesa, achavam que no precisavam procurar alm do castelo do duque ou do marqus, para encontrar uma noiva adequada.
      - Seja ela como for,  pouco provvel que a infeliz jovem consiga reter por muito tempo a afeio de Aristide, disse a si mesmo. Suspirou e tentou se consolar: pelo menos, o duque podia oferecer  esposa um nome antigo, grandes propriedades e um castelo sem igual em todo o distrito, inclusive Chambard e Chenonceaux.
      Estava agora perto de Chenonceaux, e se inclinou na janela da carruagem para olhar o famoso castelo que tinha pertencido  mais bela mulher que a Frana conhecera.
      Diane de Poitieres era vinte anos mais velha do que Henrique II, mas ele a amou at morrer, e um contemporneo escreveu que, aos sessenta e sete anos, era to bonita e to atraente como havia sido aos trinta. Comentava-se que usava feitiaria para conservar a beleza e que tomava uma poo especial, todos os dias.
      Mas o cardeal, que era um grande historiador e um homem inteligente, sempre achou que um dos motivos de Diane de Poitiers se conservar bela era o fato de tomar sempre banho frio e se alimentar frugalmente, sem beber os vinhos ricos, servidos  mesa do rei.
      Podia ver claramente o castelo e admirar sua arquitetura, numa ilha do Cher. Na ponte havia uma galeria de dois andares que, refletida na gua, parecia bela e romntica.
       assim que uma mulher deve parecer, pensou o cardeal: bonita e ao mesmo tempo original, com um toque de mistrio, para que o homem nunca fique entediado.
      Esta palavra fez com que lembrasse de Aristide.
      Tinha a impresso de que ainda no havia nascido a mulher que pudesse evitar que o duque se entregasse aos excessos que cometia para evitar o tdio!
      
      
      
      
      
      
      
      
CAPTULO II
      
      
      Seguindo de carruagem pelo campo iluminado de sol, Sua Eminncia estava imerso em profundo pensamento. Que explicao apresentaria  duquesa, por ter falhado na incumbncia que ela lhe dera?
      Nunca imaginou que no conseguisse o consentimento de uma das jovens que escolhera para casar com o duque de Savigne.
      Achou que a mais adequada era Isabelle, filha do duque de Foucauld-Fleury,
      Chegou ao castelo, um casaro imenso, muito frio no inverno, sendo recebido com grande entusiasmo tanto pelo duque quanto pela duquesa, que eram catlicos devotos.
      - Faz muito tempo, Eminncia, que tivemos o prazer de receb-lo nesta parte do pas - disse o anfitrio alegremente.
      - Infelizmente, meus deveres em Paris me mantm ocupado, mas garanto-lhes que  um grande prazer estar de novo aqui em Touraine.
      -  um grande prazer para ns - respondeu o duque.
      O cardeal saboreou um timo almoo e notou, com satisfao, que Isabelle era uma jovem atraente, que parecia sensata e habilidosa. Certamente, uma boa esposa para Aristide.
      Depois da refeio, o duque levou o cardeal para o escritrio, um dos aposentos mais luxuosos do castelo. 
      - Creio que teve um motivo especial para vir me visitar - disse ele. - Quando recebi seu recado, tive a impresso, embora talvez me engane, de que no queria vir aqui s pelo prazer da minha companhia.
      O cardeal sorriu.
      -  muito perspicaz, monsieur de duc, e tem razo. H um outro motivo para esta visita.
      - Tinha certeza disto, apesar de no atinar com a razo. O cardeal fez uma pausa, escolhendo as palavras.
      - Fui encarregado pela duquesa de Savigne e por seu filho, o duque, de sugerir uma aliana entre as famlias deles e a sua, meu amigo. Aliana que poder ser vantajosa para os dois jovens envolvidos.
      Ao falar, observou o duque que se contraa, com uma expresso incrdula. Depois, enquanto o dono da casa no parecia encontrar palavras para responder, a porta se abriu e Isabelle entrou.
      - Perdoe-me, papai, por interromp-lo, mas voc deixou seus culos na sala de jantar e achei que poderia precisar deles.
      Ele fitou-a e, ao notar que ela pretendia sair, disse:
      - Espere, Isabelle. Eu ia dizer  Sua Eminncia que consenti no seu casamento com Michel de Croix e que ele se realizar no outono.
      Isabelle arregalou os olhos, como se no pudesse acreditar no que ouvia. Ento seu rosto se transformou, adquirindo uma inesperada beleza.
      -  verdade, papai? - perguntou, em voz baixa.
      - Mas, claro! Ia dizer  Sua Eminncia que sua me e eu achamos que Michel de Croix  exatamente o marido que a far feliz.
      O cardeal era um homem perspicaz, sabia perfeitamente que o duque havia tomado tal deciso naquele exato momento, para evitar a aliana que acabara de propor.
      Era um golpe com o qual no contava, mas o cardeal reagiu como um diplomata hbil. Deu os parabns a Isabelle e sua bno que conseguiu fazer parecer sincera.
      - Lamento que sua viagem tenha sido em vo - disse o duque, assim que a filha saiu.
      - Eu no diria isto. Tive grande prazer em rev-lo, meu amigo, e espero logo poder receb-lo em Paris.
      -  muita gentileza sua. Os olhos de ambos se encontraram e eles se compreenderam.
      Ambos sabiam o que tinha acontecido.
      Depois que a carruagem partiu, o cardeal, mentalmente, riscou da lista o nome de Isabelle e ficou imaginando se sua tarefa ia ser to fcil como a duquesa e ele, a princpio, achavam.
      Antes, supunha que a maior dificuldade seria convencer Aristide a casar. Mas agora, se a atitude do duque de Foucauld-Fleury pudesse servir de exemplo, seria mais difcil ainda encontrar uma noiva.
      O marqus d'Urville no se deu ao trabalho de esconder seus sentimentos, nem de dourar a plula, quando o cardeal chegou com sua proposta.
      - Permitir que Henriette case com Savigne?! Sua Eminncia deve estar fora de si, se pensa, por um minuto sequer, que eu confiaria uma mulher, e muito menos minha filha, a esse devasso, e esse porco que atirou na lama o nome de Savigne.
      O marqus era um homem pesado e ficou to vermelho que o cardeal temeu que tivesse um derrame.
      - Foi apenas uma sugesto, meu caro marqus - disse em tom conciliador.
      - Uma sugesto que nunca devia ter sido feita - esbravejou o marqus. - A duquesa pensa que sou surdo? Que no ouo as histrias escandalosas sobre seu filho? Que no leio os jornais? - Fez uma pausa e acrescentou, mais calmo: - Se quer saber a verdade, acho que Sua Eminncia est perdendo tempo. Nenhum pai digno deste nome permitiria que a filha entrasse no Castelo Savigne. Menos ainda, que casasse com o dono! Eu, pessoalmente, prefiro ver minha filha morta!
      Isso  que  ser franco, pensou o cardeal, enquanto a carruagem se afastava. Talvez a resposta do visconde de Boulaicourt fosse a mesma. Mas, l chegando, soube que a filha da casa tinha ficado noiva na semana anterior.
      Apesar disto, ele seria obtuso, se no percebesse o alvio do visconde por no se ver obrigado a recusar uma aliana com a Casa de Savigne.
      - Creio que Sua Eminncia deixou Paris antes de as notcias do noivado sarem em vrios jornais.  um casamento que minha mulher e eu desejamos h muito anos. E  uma satisfao vermos que os noivos esto apaixonados um pelo outro.
      De novo, o cardeal deu sua bno ao futuro casal. Enquanto seguia pela estrada poeirenta, refletiu que no tinha mais onde ir, a no ser voltar para o Castelo de Savigne e contar  duquesa que havia fracassado em sua misso.
      Deve haver outras jovens, disse a si mesmo, tentando ser otimista. Lembrou-se ento que a duquesa tinha feito com grande cuidado a lista de candidatas do distrito.
      Agora, a nica soluo seria procurar mais longe. Talvez, no sul da Frana, no oeste ou no norte, onde o nome Savigne significasse algo muito diferente do que significava numa provncia to perto de Paris.
      S desejava que a duquesa no lhe pedisse para ir pessoalmente fazer essas visitas. Tinha muitas ocupaes em Paris e vivia l muito confortavelmente, achando cansativo andar sacolejando por estradas poeirentas e dormir em camas estranhas.
      No sei por que me envolvi nisto, pensou, irritado.
      Mas, como parente da duquesa e muito amigo do falecido duque, sua conscincia no lhe teria permitido ficar de braos cruzados, em vez de tentar todos os meios a seu alcance para salvar Aristide.
      Rezou para que pudesse encontrar um meio de salvar um pecador, que, pelo menos aos olhos de Deus, era passvel de recuperao.
      E ento, como se sua orao fosse atendida, viu um poste na curva da estrada, onde se lia: "Monceau-sur-Indre, 5 quilmetros".
      Gritou para o cocheiro:
      - Pare a carruagem! Seu capelo, sentado  sua frente, um rapaz srio, plido, quase
      cadavrico de tanto jejuar, ficou imediatamente  atento.
      - Parar a carruagem, Eminncia? - perguntou, surpreso.
      - Ouviu o que eu disse! A ordem foi obedecida. Os seis cavalos pararam. Um dos cavaleiros da comitiva do cardeal aproximou-se da janela aberta.
      - Deseja alguma coisa, Eminncia?
      - Faa a carruagem virar e me leve para o Castelo Monceau. Fica no fim da aldeia, depois da igreja.
      - Perfeitamente, Eminncia! A  carruagem virou com certa dificuldade e a comitiva voltou, tomando a estrada estreita.
      O cardeal tinha razo, ao dizer que era fcil encontrar o castelo. Alm da igreja, havia dois portes de ferro forjado, necessitando de pintura, e uma alameda curta, onde as rvores haviam crescido desordenadamente, formando uma abbada, os galhos s vezes roando o teto da carruagem.
      No fim da alameda, erguia-se o castelo, com suas torres pontiagudas e suas guas furtadas. A simetria gtica refletia-se no pequeno riacho que se alargava, formando um lago.
      As rvores em volta da casa de pedra formavam uma moldura verde. Olhando para a maltratada esplanada de cascalho, o cardeal achou que, mais do que nunca, parecia o castelo da Bela Adormecida.
      Como no eram esperados, o capelo olhou para o cardeal,  espera de instrues.
      - Pergunte se o conde de Monceau est em casa.
      O capelo desceu justamente no momento em que a porta do castelo foi aberta por um criado idoso. Falou com o homem e voltou pouco depois.
      - O criado disse que o conde est na biblioteca, Eminncia, e foi avis-lo de sua chegada.
      O cardeal desceu e galgou lentamente a escada da frente. Quando chegou em cima, viu aparecer um homem correndo pelo hall, de mos estendidas para receb-lo.
      - Xavier! Que surpresa agradvel! - Apertou as duas mos do cardeal e, depois, lembrando de quem se tratava, fez uma genuflexo e beijou-lhe o anel.
      - Meu caro Grard! - Eu estava passando pela estrada e me lembrei de que no nos vemos h muito tempo.
      - Entre! Vamos para a biblioteca! Vamos tomar um copo de vinho. Quero que me conte tudo que tem acontecido ultimamente.
      - Vai levar tempo - observou o cardeal, sorrindo.
      - Tem que ficar para o jantar. Ou passar a noite aqui, se assim o desejar.
      - Esperam-me no Castelo Savigne mas, se o jantar for servido cedo, meu caro Grard, aceito com prazer.
      Depois de levar o cardeal para a biblioteca, o conde chamou um criado o ordenou-lhe que trouxesse vinho.
      Atravessou a sala e olhou para o cardeal, que sentara numa das poucas cadeiras disponveis.
      Havia livros por toda a parte. No s as paredes estavam cheias de estantes, como havia pilhas enormes em todos os cantos, em quase todas as cadeiras. Via-se que, antes da chegada do amigo, o conde estivera trabalhando na escrivaninha. Estava cheia de manuscritos e tambm de livros, alguns abertos e muitos cheios de papis, marcando certas passagens.                                                                   
      O cardeal ergueu os olhos e disse:
      - Voc mudou muito pouco, Grard, desde o tempo em que gozamos  a vida juntos.
      - Faz muito tempo...
      Era de fato um belo homem, embora vestido com desleixo, como se achasse aborrecido tudo que o conservasse afastado de seus livros. Parecia muito mais moo do que realmente era. Tinha poucos cabelos grisalhos, ao passo que a cabeleira do cardeal era inteiramente branca. Seus olhos brilhavam, quando ele falava, e o sorriso era espontneo.
      - Fale-me de voc, Xavier. Sei que ficou muito importante e que tem grande influncia em Paris.
      - Gostaria que fosse verdade. Hoje em dia, poucas pessoas do ouvidos  Igreja.
      - Creio que tem razo. Mas, quando ramos estudantes, lutando para obter conhecimentos, sempre soube que voc iria longe, ao passo que eu...
      Ao dizer isto, fez um gesto na direo dos livros sobre a escrivaninha.
      - Creio que voc publicou uma obra - comentou o cardeal.
      - Duas, para dizer a verdade. Mas quem as l? Ningum se interessa pelo passado. Esto todos ocupados demais com o presente.
      - Apesar disto, acontea o que acontecer no mundo, sempre haver necessidade de homens cultos e de historiadores que registrem os fatos para as geraes futuras - ponderou o cardeal, serenamente. - Quando eu morrer, provavelmente serei esquecido, enquanto voc, Grard, ser lido talvez durante muitos sculos.
      O conde riu, com uma risada um tanto infantil. - Sempre o mesmo, Xavier, inspirando aqueles que o ouvem. Sempre me lembrarei de seu primeiro sermo naquela igrejinha escura e feia, nos cortios de Montparnasse. Voc comeou com...   eram doze, na congregao?... e, quando acabou, muita gente teve que ficar do lado de fora! O cardeal suspirou. - Era um trabalho duro, mas s vezes penso que nunca fui to feliz.
      Qualquer coisa em seu tom fez com que o conde olhasse para ele, atentamente.
      - Voc escolheu um caminho rduo, quando resolveu renunciar s coisas boas da vida, um lar, uma esposa e filhos. Eu o admirei na ocasio, Xavier, e o admiro agora.
      Um criado entrou com uma garrafa de vinho e dois copos. Teve dificuldade em encontrar na mesa um lugar para a bandeja, mas, finalmente, resolveu o caso colocando-a em cima de alguns livros.
      O cardeal notou, com satisfao, que era um vinho local, que muito apreciava. Tomou um gole, saboreando-o, e disse:
      - Fale-me de voc, Grard. Sabia que seria feliz no casamento e senti muito no poder comparecer  cerimnia.
      - Compreendi que estava ocupado demais. Sabe que h quase vinte anos que no nos vemos? Apesar disto, ainda me lembro de muitas coisas sobre as quais conversvamos.
      - Como se fosse ontem - murmurou o cardeal, como se falasse consigo mesmo.
      - Gostaria que voc tivesse conhecido Fleur - disse o conde. - Era bonita e muito inteligente. Ajudava-me com meus livros, fez de minha vida um paraso que poucos homens conhecem.
      - Que aconteceu?
      - Morreu h trs anos.
      Havia na voz do conde uma nota de grande tristeza, que contou ao cardeal o quanto havia sofrido com a perda da esposa.
      - Sinto muito, lamento tambm no ter sabido disso. Teria vindo trazer-lhe o pouco de consolo que fosse possvel.
      Ao mesmo tempo, ficou imaginando se estaria dizendo a verdade. Teria deixado suas inmeras obrigaes em Paris e viajado para Tou-raine para confortar um amigo, mesmo sendo ele Grard de Monceau, de quem havia sido to ntimo na mocidade?
      - Ningum podia fazer nada - disse o conde. - E, felizmente, Syrilla estava comigo.
      - Syrilla?
      - Minha filha. Quando ela nasceu, pensamos em pedir-lhe para batiz-la, meu caro Xavier, mas voc j era famoso demais. J tinha comeado a subir a escada que o levou  atual posio. - O conde sorriu e continuou: - Minha mulher e eu falvamos muitas vezes em voc. Ela estava interessada em saber o quanto nossa amizade significava para mim, quando ramos jovens. Ns, gente simples do campo, no queramos nos imiscuir no mundo dos negcios onde voc tem um papel to importante.
      - Fale-me de Syrilla.
      O olhar do conde iluminou-se.
      -  linda de esprito, corpo e alma. Vou mostrar-lhe um retrato dela, feito por um artista jovem que estava passando as frias na aldeia. Pediu licena para pintar Syrilla, e acho que o retrato ficou muito parecido.
      O conde levantou e atravessou a sala, indo at um canto onde, quase oculta por livros, se via uma tela sem moldura, colocada num cavalete baixo.
      Tinha acabado de pegar a tela, quando, pela porta-janela que dava para o jardim, apareceu uma criaturinha esbelta, de vestido branco.
      A moa atravessou a sala correndo, e o cardeal achou que possua uma graa extraordinria. Parecia flutuar, seus ps mal tocando o cho, as saias rodadas roando as pilhas de livros, por onde passava.
      - Papai! Tenho uma coisa emocionante para lhe contar - disse, com uma voz musical.
      - Que , meu bem?
      - Eu estava com Jacques, no parque, quando ele cuidava dos carneirinhos que acabam de nascer, quando aconteceu uma coisa extraordinria.
      - Que foi?
      - Quando Jacques pegou um deles, o coitadinho parecia estar morto. Ento, Jacques abriu a boca do animalzinho e comeou soprar dentro dela! Soprou durante bastante tempo, papai, e voc pode no acreditar, mas o bichinho viveu!
      - Parece realmente  extraordinrio.
      - Foi extraordinrio! Voc acha, papai, que podemos dar vida queles que dela necessitam?
      - A vida vem de Deus - interveio o cardeal. - Mas, s vezes, temos o privilgio de transmiti-la a outras pessoas.
      Syrilla sobressaltou-se, pois no tinha visto o visitante. Quando se virou, o cardeal viu que era muito bonita, mas diferente do que esperava.
      Em primeiro lugar, era loura. Tinha cabelos dourados, olhos muito azuis e pele alva, levemente rosada nas faces. Era mida e bem feita, e, quando se aproximou dele, o cardeal notou que se movia com uma graa que raramente tinha visto em outra moa, a no ser, talvez, numa bailarina.
      - Esta  minha filha Syrilla, Xavier.
      Syrilla fez uma profunda genuflexo e beijou o anel de esmeralda que o cardeal usava.
      - Perdoe-me, Eminncia. No sabia que meu pai tinha visita.
      - Sou um velho amigo. E  uma falha da minha parte no saber da sua existncia, minha menina, at h poucos minutos. Syrilla sorriu, e ele notou que tinha duas covinhas nas faces.
      - Sei quem o senhor , porque papai fala no senhor muitas vezes. Como devem ter-se divertido, quando moos!
      -  verdade. E foi uma pena, para mim, ter perdido contato com seu pai.
      - Agora que est aqui, posso ir ver seus cavalos? - perguntou a moa, com voz meiga. - Tenho certeza de que Sua Eminncia veio com uma magnfica comitiva.
      -- Estou certo que eles vo ficar to contentes como eu, por travar conhecimento com voc - brincou o cardeal.
      - Antes de ficar to presa pelos cavalos, a ponto de esquecer todo o resto, quer dizer  cozinheira que Sua Eminncia vai ficar para jantar? - pediu o pai. - E que ela faa o melhor possvel, em to curto prazo, pois temos que jantar cedo.
      - No pode passar a noite aqui? - perguntou Syrilla ao cardeal.
      - Infelizmente, no. Mas terei prazer em jantar com voc e seu pai.
      - Ser muito interessante para ns. Mas o senhor talvez fique decepcionado com nossa comida, muito simples.
      Disse isso com um sorriso e se encaminhou para a porta. Depois que ela saiu, o cardeal disse ao conde:
      - Como voc pde gerar uma criaturinha to encantadora? Pela primeira vez, Grard, acho que o invejo.
      -  linda, no ? E muito parecida com a me. - Como se soubesse que o amigo queria uma explicao, continuou: - Fleur era da Normandia. Por isso Syrilla tem cabelos louros e olhos azuis. Sempre disse que parecia mais inglesa do que francesa, mas garanto-lhe, Xavier, que  bem francesa! Alm do mais, cozinha como uma francesa, de modo que no tenho medo de que voc no aprecie seu jantar.
      Fez uma pausa e perguntou:
      - Lembra daquele restaurantezinho na Rive Gache, que costumvamos freqentar porque era barato?
      - Claro que sim.
      - Nunca mais pensei nele, at agora. Era to divertido aos sbados  noite, quando ficvamos conversando at de madrugada!
      - E a sala ficava to esfumaada, que a gente no via o que estava do outro lado.
      - Creio que foram aquelas discusses que despertaram em mim o desejo de escrever - explicou o conde.
      Durante algum tempo, os dois relembraram o passado. O conde voltou  realidade.
      - Voc h de querer se lavar, antes do jantar. - Depois, como se um pensamento lhe ocorresse, perguntou: - Mas no est viajando sozinho, est? Um cardeal, assim como um bispo, no anda sempre acompanhado por um capelo?
      - Meu capelo est sempre preocupado com os pecados da carne. Por este motivo, jejua tanto, que at parece que eu o maltrato, o que lhe garanto que no  verdade! Hoje, para ele,  dia de abstinncia total, de modo que se contenta em ficar sentado na carruagem, ou em andar pelo parque, e no vai querer nos fazer companhia.
      - Tem certeza? No quero parecer pouco hospitaleiro.
      - E eu no quero que o padre Pagerie, que, lamento diz-lo,  um maante, estrague a intimidade de nossa reunio.
      Foi um jantar muito alegre. A comida no s era excelente, como feita de um modo que apenas um francs sabe apreciar, parecendo um man dos cus. O vinho, do pequeno vinhedo do conde, era um verdadeiro nctar.
      No houve apenas boa comida, como boa conversa. Os dois amigos relembraram episdios do passado que fizeram com que tanto eles quanto Syrilla rissem at chorar.
      A moa desejou que outros amigos do pai viessem visit-lo para distra-lo e afast-lo um pouco dos livros.
      Observando-a e ouvindo-a, o cardeal achou que era uma das moas mais atraentes que conhecia. No era somente a sua beleza, mas tambm algo de espiritual na expresso a tornavam muito diferente das outras mulheres. Principalmente, das que ele conhecia em Paris.
      Seu riso era espontneo e, de vez em quando, ela dizia uma frase espirituosa e alegre que dava encanto  conversa. Tinha inteligncia e cultura, o que no era de estranhar numa filha do conde.
      Ele disse uma pilhria em latim que ela compreendeu e respondeu com uma citao grega, de um modo muito parecido com o do pai, quando ele e Xavier duelavam, anos antes, em assuntos intelectuais. Finalmente, o cardeal compreendeu que estava na hora de pedir que mandassem vir sua carruagem, que tinha sido levada para a co-cheira. Mas no sentia nenhuma vontade de partir.
      A noite tinha sido muito agradvel, aliviando-o do trabalho que pesava sobre seus ombros, em Paris. Quando voltaram para a biblioteca, de repente um pensamento lhe ocorreu.
      - Que idade tem Syrilla? - perguntou ao conde
      - Fez dezoito em janeiro. Receio que leve uma vida muito montona aqui, mas, como voc viu, parece satisfeita, e nenhum homem poderia ter uma filha mais amorosa e dedicada.
      - Mas, aos dezoito anos, j devia estar pensando em casar. O conde pareceu constrangido.
      - Claro que tenho pensado nisso, Xavier, mas levamos uma vida to isolada, no recebemos nem fazemos convites. Suponho que haja alguns rapazes na vizinhana, mas no conhecemos nenhum.
      O cardeal refletiu por um momento. Se obedecesse ao instinto, diria adeus e deixaria aquele lar tranqilo em paz, mas depois achou que talvez um poder maior tivesse guiado seus passos at aqui, por uma razo especial.
      No soube como pde conceber semelhante idia, pois o que ia sugerir era um ultraje  decncia, ou antes, um crime contra aquela adorvel criatura que no conhecia a maldade do mundo.
      No posso fazer isto! disse a si mesmo.
      Lembrou-se, ento, do rosto splice da duquesa de Savigne e teve certeza de que ela no tinha mais muito tempo de vida. Como poderia voltar e lhe contar que tinha fracassado?
      Limpou a garganta e disse:
      - Grard, voc no me perguntou por que motivo me acho em Touraine, atualmente.
      - Imagino que seja alguma coisa muito importante, para afast-lo de Paris.
      - Considero importante procurar uma noiva para o duque de Savigne.
      - Do Castelo Savigne?  uma bela espcie de arquitetura. Como deve saber, Xavier, tem grande importncia histrica, porque, na Idade Mdia...
      - Conheo bem a histria de Savigne - interrompeu o cardeal. Se deixasse o amigo se envolver em reminiscncias histricas, seria difcil voltar ao presente. 
      - O que desejo lhe perguntar  se estaria disposto a levar em considerao uma unio entre Syrilla e o duque de Savigne.
      O conde fitou-o com tal espanto, que o cardeal percebeu que semelhante idia jamais passara por sua cabea.
      - Quer dizer que... a idade combina?
      - Para dizer a verdade, ele tem um pouco mais de trinta. Alm de um nome importante e inmeras propriedades. - Fez uma pausa e, como no encontrasse nada mais para dizer, acrescentou, apenas: - Syrilla daria uma bela duquesa.
      O conde andou de um lado para outro da sala.
      - Minha mulher e eu conversamos muitas vezes sobre o que faramos, quando chegasse a hora de Syrilla casar. No lhe contei, Xavier, mas Fleur j tinha sido casada. Era viva, quando nos conhecemos. Tinha trinta e cinco anos, e, para ns dois, foi amor  primeira vista. - Havia uma nota de tristeza em sua voz, ao continuar: - Por este motivo, cada ano que passamos juntos foi precioso. Quando Syrilla nasceu, achamos que foi um milagre de Deus.
      - Compreendo.
      - Fleur no foi feliz no primeiro casamento. Casou muito cedo, com um homem bem mais velho, bruto e autoritrio. Por isto, ns dois juramos que jamais obrigaramos Syrilla a um casamento arranjado.
      O cardeal murchou, ao ouvir estas palavras. Era uma nova decepo, embora, na realidade, no tivesse muita esperana de ver sua sugesto aceita.
      O conde de Monceau, apesar de pobre e sem grande importncia social porque levava vida isolada, era de sangue e educao iguais as dos Savigne. Se o duque casasse com Syrilla, no seria uma aliana inferior para ele.
      A verdade, pensou o cardeal, era que, mais uma vez, a famlia da moa recusava o pretendente.
      - Minha mulher e eu resolvemos que, quando chegasse a ocasio, deixaramos que Syrilla decidisse se queria ou no casar. Como voc bem pode imaginar, Fleur tinha horror a casamento de convenincia.
      - Sim, compreendo, j que Syrilla nunca viu o duque, no adianta falar com ela.
      E tambm no havia chance de Syrilla ficar conhecendo o duque, pensou o cardeal. A duquesa tinha-lhe escrito que Aristide se recusava a ser apresentado  noiva antes do casamento. Agora, j devia ter voltado para Paris, para sua vida dissoluta.
      - Est ficando tarde, Grard, e acho que preciso ir.
      - No. Espere um momento! Voc me fez uma proposta e acho que, j que se trata da vida de Syrilla, ela seja consultada. - Sorriu e continuou, com uma expresso maliciosa: - Afinal, se no servir para outra coisa, servir para ela adquirir prtica em recusar os pedidos de pretendentes importunos! Agora que voc me alertou, acho que preciso ser menos egosta e pensar no futuro de minha filha.
      - Creio que  o que deve fazer. Pode gostar de viver no passado, Grard, mas Syrilla tem que pensar no presente. E  uma linda moa. 
      - Por uma vez, Xavier, aceito seu sermo e reconheo que errei.
      Os dois riram, como velhos amigos e partilharam muitas brincadeiras.
      O conde foi at a porta e chamou a filha,
      Ela veio correndo.
      - Garanto que vai dizer que Sua Eminncia est de partida, papai. Eu estava verificando se os criados e a comitiva tinham sido bem alimentados. O capelo recusou tudo: comida, bebida, at mesmo sorrir para mim!                                                  
      - No acredito que haja muitos homens que possam fazer isto - observou o cardeal.
      - Ele parece infeliz - disse Syrilla. - Ser que o senhor  cruel para o pobre coitado?
      - Ele  cruel consigo mesmo - respondeu o cardeal. - Creio que, para ele, at mesmo sorrir  uma tentao do diabo.
      - Espero que no - disse Syrilla a brincar. - Porque, neste caso, ns trs vamos passar uma longa temporada no purgatrio!
      Estava to bonita, sorrindo, com duas covinhas nas faces, que novamente o cardeal teve vontade de no perturbar a paz daquele lar feliz. Mas era tarde demais.
      - Sua Eminncia me fez uma proposta, Syrilla. E acho que voc precisa ouvi-la.
      - O que , papai?
      - Sua Eminncia me perguntou se voc estaria disposta a aceitar o pedido de casamento do duque de Savigne!
      O cardeal desejou que Syrilla nunca tivesse ouvido falar do duque, pois no suportaria ver sua expresso se alterar e se tornar escandalizada ou desdenhosa. Pior ainda, no queria ver nela a repulsa que ele prprio sentiu, quando ficava sabendo das farras do duque.
      Mas, com espanto, viu no rosto dela, primeiro, incredulidade; depois, uma expresso radiosa.
      - O duque de Savigne? - perguntou, baixinho. - Voc quer dizer o... duque, papai?
      -- Sabe que eles no moram muito longe daqui - disse o conde. - No Castelo Savigne.
      - Sei disto. Fui at l uma vez, com mame. - Olhou para o cardeal, com ar indagador. - Mas por que ele se interessaria... por mim?
      - O duque quer se casar. sto faria sua me muito feliz. E tambm eu ficaria contente, Syrilla, se voc o aceitasse como marido.
      Esperou que Deus o perdoasse, no pelo que estava dizendo, mas por sugerir quela encantadora menina que se tornasse esposa de Aristide de Savigne.
      Houve um silncio, e o cardeal achou que a expresso de Syrilla se tornava ainda mais radiosa, o que lhe pareceu incompreensvel. Ento, ela falou, em voz baixa, mas ntida:
      - Eu me sentiria honrada, profundamente honrada, e orgulhosa em ser a esposa do duque de Savigne!
      Por um momento, o cardeal ficou mudo. Olhou para a jovem, como se no tivesse ouvido direito. O conde perguntou:
      - Deseja realmente isto?
      - Sim, papai.
      - Mas no conhece o duque.
      - Eu o vi. E penso nele muitas vezes.
      O pai fitou-a, perplexo. Depois, disse hesitante:
      - Se ... o que quer...
      O cardeal teve a impresso de que o amigo tinha dificuldade em raciocinar e foi em seu auxlio.
      - Sei que a duquesa ficar encantada. Tenho certeza de que amanh voc receber uma carta dela, convidando-a a ir visit-la, em companhia de seu pai.
      Esperou que Syrilla ou o conde dissessem alguma coisa, mas, vendo que estavam em silncio, continuou:
      - Devo explicar que a duquesa est doente.  provvel mesmo que no viva muito tempo. Sugiro, portanto, que o casamento se realize brevemente. Talvez, no ms que vem, em junho, se lhe convier. E, naturalmente, se convier... ao duque.
      No pde deixar de fazer uma pausa, antes das duas ltimas palavras. No achava improvvel que, no ltimo momento, Aristide fugisse s responsabilidades e se recusasse a casar com a moa escolhida por sua me. Mais ainda: o cardeal tinha certeza de que, se a duquesa morresse, no se falaria mais em casamento, por mais adiantado que estivessem os preparativos.
      - Estou pronta a fazer o que o duque e sua me quiserem, disse Syrilla.
      Havia ainda em seu rosto uma expresso de estranho xtase, que o cardeal achava incompreensvel. No podia acreditar que Syrilla; sendo filha de quem era, estivesse interessada em obter um ttulo importante. Mas a gente nunca sabe, com as mulheres, pensou. Talvez o mximo de sua ambio fosse tornar-se duquesa.
      Mesmo enquanto pensava nisto, o cardeal sabia que no era verdade.
      No... havia outra coisa, algo que ele no compreendia, na pronta aceitao do pedido de casamento e na felicidade que a perspectiva daquela unio proporcionara   jovem.
      Mas quem  que se sentiria feliz por casar com o duque de Savigne?
      Ningum, a no ser uma jovem que ignorasse o que se passava na sociedade, que nunca tivesse ouvido o que se dizia a respeito dele e a que degradao havia chegado.
      O conde resolveu falar:
      - Vamos esperar, at termos notcias da duquesa. Depois que voc partir, naturalmente, vou conversar com Syrilla, para ter certeza de que  isto mesmo que ela quer.
      O cardeal estava certo de que o amigo no conhecia a reputao do futuro genro. Ao mesmo tempo achava que, tendo os dois sido muito unidos no passado, e sendo o conde um homem perspicaz, devia ter notado que havia algo estranho na proposta do cardeal.
      Talvez adivinhasse que no desejava tanto assim aquele casamento.
      Mas a sorte estava lanada.
      Agora que Syrilla aceitara o pedido, o cardeal nada mais podia fazer, a no ser ir dar a notcia  duquesa, sabendo que ficaria muito satisfeita.
      O nico mal era que ele se sentia um traidor do amigo, um verdadeiro Judas.
      Procurou se consolar, dizendo a si mesmo que nunca lhe passou pela cabea que o conde ou Syrilla aceitassem. Mas no foi o que aconteceu, e o sucesso de sua misso tinha um gosto amargo.
      Talvez ela mude de idia, pensou, cheio de esperana.
      Finalmente foram feitas as despedidas. O cardeal, j na carruagem, inclinou-se  janela, para um ltimo adeus.
      Com seus cabelos dourados e o vestido branco contrastando com a casa de pedra cinzenta, Syrilla parecia pertencer a um conto de fadas... Poderia tambm ser uma ninfa sada da gua prateada onde o castelo se refletia. Ou um anjo cado do cu. Mas... Syrilla e Aristide Savigne!
      O cardeal estremeceu e viu de novo as manchetes de jornais sobre as escandalosas aventuras do duque. Viu uma srie de mulheres, cujos nomes tinham sido ligados ao dele, sendo que muitas o amaldioavam pela infelicidade que lhes causara.
      Mas Syrilla, jovem, ingnua,  pura, inocente, ser entregue a um homem cheio de vcios, para o qual o amor nada significava! Que Deus me perdoe! Cometi um crime para o qual no h perdo!, refletiu o cardeal.
      Nem mesmo as oraes puderam confort-lo, enquanto a carruagem rodava rumo ao Castelo Savigne.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
CAPTULO III
      
      
      Quando Syrilla se aproximou da cama, a duquesa abriu os olhos. Por um momento, olhou para o vulto todo de branco. Depois, quando Syrilla pegou sua mo e a beijou, a velha senhora perguntou:
      - Vocs j esto casados?
      - Sim, madame, estamos - respondeu a moa, suavemente.
      Os olhos da duquesa adquiriram vida e a cor voltou a seu rosto.
      - Tenho rezado para que sejam felizes. Onde est Aristide?
      - Vir v-la mais tarde. Nem todos os convidados partiram. No quis aborrecer a sogra, contando-lhe o que tinha acontecido.
      Quando ela e o duque voltaram da capela para o castelo, ele desceu antes e, enquanto os lacaios a ajudavam a descer, tendo cuidado com a cauda longa do vestido rodado, Aristide entrou no hall e desapareceu.
      Os convidados comearam a chegar, e Syrilla mal pde acreditar que o marido no viesse para seu lado, para ajud-la a receb-los. Disse a si mesma que, provavelmente, ele estava doente. De fato, fazia muito calor na capela repleta. Os convidados, em trajes de seda e de cetim, comprimiam-se uns aos outros e o perfume das senhoras, misturado  fragrncia das flores e ao cheiro de incenso, era quase insuportvel.
      A prpria Syrilla mal podia respirar. O vu de renda de Bruxelas, que estava na famlia Monceau h muitas geraes, contribua para isto, e a noiva desejou que, quando ele fosse erguido, seu rosto no estivesse vermelho demais. No queria que o duque a visse assim, pela primeira vez.
      Mas, ao chegar o momento, percebeu que o marido no olhou para ela. Tambm no caminho de volta para o castelo, ele no lhe deu ateno, contentando-se em acenar languidamente para os empregados e os arrendatrios que os cumprimentavam.
      Tendo grande percepo quanto aos sentimentos dos outros, Syrilla percebeu, no momento em que chegou ao altar-mor, que alguma coisa perturbava o noivo. Seu estado de esprito era muito diferente do dela.
      Aceitara o fato de o duque no poder v-la antes da cerimnia, e a desculpa de  que negcios importantes o prendiam em Paris lhe pareceu vlida.
      Seu pai, entretanto, estava preocupado e mais uma vez lhe perguntou se tinha certeza de que queria casar com o duque.
      - Eu gostaria de conhec-lo, antes de vocs casarem-se - disse ele, com toda razo.
      - Sei disso, papai, mas o que impede que o duque venha nos visitar  que, devido  sade da me, o casamento tem que se realizar assim to depressa.
      - Vocs tm a vida inteira pela frente, de modo que acho que mais uns dias de adiamento no fariam diferena.
      - Foi o cardeal que planejou tudo - respondeu Syrilla.
      No queria discutir com o pai e ficou calada, quando ele continuou argumentando.
      O conde fitou-a, com curiosidade:  a filha havia mudado de um jeito que ele no  compreendia. Sequer tinha conseguido que lhe explicasse porque desejava casar com um homem que mal conhecia. Consolou-se com a idia de que, depois de casada, ela no ia morar muito longe. A distncia entre os castelos Savigne e Monceau-sur-Indre era de mais ou menos uma hora de viagem. Mas sabia que sentiria muita falta da filha, por mais que seus livros o absorvessem. Havia uma luz nos olhos de Syrilla e um sorriso em seus lbios que faziam com que todos que a conheciam achassem que nunca parecera to bela, nem to feliz.
      Enquanto recebia os convidados no imenso salo de baile do castelo, todos comentavam sua beleza.
      Pierre de Bethume aproximou-se de Syrilla.
      Ela estava no lugar que lhe havia sido designado, com lrios e rosas de ambos os lados, imaginando, constrangida, o que devia fazer, j que ainda no havia sinal do marido.
      - Sou o procurador de monsieur de duc. Posso sugerir, madame, que como no consigo encontrar o duque, seu pai comece a receber os convidados a seu lado?
      - No sabe onde monsieur est? - perguntou ela com expresso preocupada nos olhos azuis.
      - Deve estar por a. No creio que demore a voltar.
      - Sim,  claro. Seria muita gentileza sua pedir a papai que venha para o meu lado.
      O conde veio imediatamente, e Syrilla percebeu que estava atnito com o procedimento do genro. Mas no tiveram ocasio de falar sobre isto, porque o mordomo comeou a anunciar os convidados que chegavam ao salo de baile.
      Syrilla no conhecia quase ningum e teria preferido estar recebendo os arrendatrios e os empregados, muitos dos quais eram seus amigos.
      Depois da recepo, trezentas pessoas sentaram para o almoo, no magnfico salo de banquetes construdo na Idade Mdia e que era um dos maiores de Touraine. Ainda no havia sinal do duque. Sentada  cabeceira da mesa, com um lugar vago a seu lado, Syrilla teria ficado constrangida e um tanto perdida, se todos no se esforassem para agrad-la.
      O almoo pareceu-lhe interminvel.
      Como era de esperar, a comida estava excelente. Os chejs do castelo tinham trabalhado durante semanas, preparando os pratos que eram as especialidades da provncia.
      Serviram carpe  Ia Chambord, preparada de acordo com a receita do chef de Francisco I. Langue de boeuf en paupiette, lngua de vaca recheada, um dos pratos preferidos de Henrique II. Havia tambm o habitual pudim preto de Tours, salmo pescado no Loire, fgado de galinha em gelatina, um prato tpico de Amboise, alm de lagosta e de fricass de coelho, prato apreciado pelos que viviam em Bourgue.                                                                                                                       
      O Vouvray blanc e o Bourgueil rouge, que vinham dos vinhedos do duque, conforme contaram a Syrilla, eram melhores do que qualquer outro vinho local. No havia dvida de que os convidados apreciavam tudo. E estavam se divertindo multo!
      S Syrilla achava que havia algo de errado na ausncia do noivo e desejou no ser ela a causa de seu desaparecimento.
      Pierre de Bethume disse-lhe que a duquesa-me desejava ver os noivos, assim que lhes fosse possvel.
      Syrilla sabia que a sogra tinha ficado muito decepcionada por no ter podido assistir ao casamento. Mas, devido ao calor e por ela parecer muito fraca, os mdicos no permitiram que se levantasse.
      Em inmeras visitas ao castelo, desde que ficou noiva, Syrilla compreendeu como a futura sogra era sensvel a tudo que dizia respeito ao filho. Por nada deste mundo, contaria  duquesa o estranho comportamento de Aristide, aps a cerimnia.
      - Foi muita gentileza sua vir me ver - disse a velha, com sua voz suave.
      - Eu teria vindo muito antes, se tivesse sido possvel - disse. - Mas o almoo parecia interminvel e todo mundo comeu como se estivesse morrendo de fome!
      Deu uma risadinha, que fez aparecer suas covinhas, e continuou:
      - No ficaria admirada, se soubesse que jejuaram durante uma semana, preparando-se para  festa!
      - O cardeal j partiu? - perguntou a duquesa.
      - Sua Eminncia teve que voltar para Paris, assim que a cerimnia terminou. Gostaria que a senhora tivesse ouvido seu sermo. Foi sincero e inspirador.
      - Garanto que foi.
      - E a cerimnia, uma beleza.
      Syrilla sentia que a missa nupcial tinha trazido uma bno especial ao seu casamento. Mas, embora empolgada pela beleza da cerimnia, havia percebido que o homem ajoelhado a seu lado no estava emocionado.
      Disse a si mesma que era imaginao sua, mas, no fundo, sabia que no estava enganada.
      - Precisa voltar para junto de seus convidados, minha querida - disse a duquesa. - Obrigada por vir me ver. Diga a Aristide que suba at aqui, assim que puder.
      - Naturalmente, senhora.
      Syrilla inclinou-se e beijou o rosto da sogra. Depois, fez uma reverncia, beijou-lhe a mo  saiu do quarto.
      Ao ficar sozinha, a duquesa rezou para que aquela linda moa desse a Aristide a felicidade que tanto desejava.
      Syrilla caminhou pelo corredor largo que levava da ala sul para as outras partes da casa. Tinha certeza de que quase todos os convidados haviam partido e ningum notaria sua falta, se fosse at o quarto para tirar a tiara de brilhantes. A jia era muito pesada e, certamente, feita para uma pessoa maior e mais forte do que ela. Syrilla, realmente, teria ficado muito mais satisfeita com a convencional grinalda de flores de laranjeira. Mas a duquesa lhe disse que a tiara era usada por todas as noivas de Savigne.
      Desejando fazer tudo que esperavam dela, Syrilla nem pensou em se recusar a seguir a tradio de famlia. No entanto, no quis usar as outras jias, suntuosas e pesadas: o colar de brilhantes enormes, os compridos fios de prolas perfeitas, as pulseiras, os anis grados!
      Olhou para a aliana de ouro que o duque tinha colocado em seu dedo e achou que era a nica jia que desejava e a que prezaria a vida inteira, mais do que qualquer outra coisa.
      Ficou trmula, quando o duque segurou sua mo na hora dos votos, e, sob o vu, fitou o rosto do noivo, achando que era o homem mais bonito e mais atraente do mundo.
      O cardeal os unira, dizendo:
      Ego conjugo vos In matrimonium; in Nomine Patris, t Filii, et Spiritus Sancti.
      Depois, abenoou as peas de ouro e prata e as atanas, entregando-as ao duque. Este colocou a aliana no dedo de Syrilla, dizendo:
      "Com este anel, eu te recebo como esposa: este ouro e esta prata eu te do; com o meu corpo eu te amo; e com todos os meus bens terrenos eu te doto."
      Syrilla ficou trmula ao ouvir tais palavras e rezou, do fundo do corao, para ser digna dele e fazer com que o marido a amasse.
      Agora que os convidados haviam partido, pensou que poderiam ficar ss e conversar intimamente.
      Do topo da escada, viu pela porta aberta que l fora havia apenas duas ou trs carruagens. Ia se dirigir para o seu quarto, conhecido como o quarto da rainha, ao lado do quarto do rei, onde o duque dormia, quando ouviu vozes. Vinham de um dos aposentos onde as convidadas tinham deixado os agasalhos. L dentro havia duas senhoras. Ficou imaginando se seria mais delicado entrar para se despedir delas e ainda hesitava, quando ouviu uma delas dizer:
      - Claro que o duque nunca mais foi o mesmo, desde aquela tragdia. Ouvi dizer que est completamente mudado.
      - Que aconteceu? - perguntou a outra.
      - Voc era muito moa na ocasio.  Pode ficar certa de que causou sensao!
      - Que foi que houve?
      - Acontece que a amiguinha do duque, com quem muita gente achava que ele ia casar, foi estrangulada.
      - Estrangulada? Por quem?
      - Por um homem chamado Astrid.
      - Qual o motivo?
      - Cime!.
      - Quem era ela'?
      - Uma bailarina chamada Zivana Mezlanski. Era conhecida cm toda Paris e estava comeando a fazer sucesso, quando o duque se apaixonou por ela.
      - Por uma bailarina? A   duquesa no deve ter ficado nada satisfeita!
      - Creio que Zivana era uma bailarina excepcional e, alm do mais, o duque era jovem e impetuoso. Tinha apenas vinte e um anos.
      - Voc disse que a mulher foi estrangulada?
      - Foi um crime hediondo e, naturalmente, deve ter sido horrvel para ele, mas comentam... - O resto da frase foi dito em voz baixa, e Syrilla s pde ouvir as ltimas palavras: - ... Agora, as mulheres no significam nada para ele!
      Syrilla continuou ali, sem saber o que fazer. Quando se preparava para ir embora, ouviu a mulher mais velha comentar:
      - Ele tem uma capela, ou um santurio, para a morta, em algum lugar, aqui no castelo. Todas as coisas dela esto guardadas l, at mesmo as sapatilhas. Mas ningum tem permisso de entrar.
      - Est falando srio?
      - Muito srio. A princpio, todo mundo falava nisso. Depois, como sempre acontece, tudo foi esquecido,  medida que os anos passaram.
      - Parece que o duque no esqueceu - observou a mais moa, com uma risada. - Parece que ainda est de luto pela perda da amada. Nunca vi um homem atraente com uma aparncia mais lgubre, no dia de seu casamento.
      - Foi o que achei. Mas, vamos, est na hora. Garanto que somos as ltimas a partir.
      Com um sobressalto, Syrilla compreendeu que, se as duas sassem logo do quarto, iriam encontr-la ali. Segurando a saia rodada, saiu correndo pelo corredor e teve certeza de que no foi vista.
      Entrou em seu quarto e fechou a porta.
      Dirigiu-se depois para a penteadeira lindamente entalhada e olhou para o espelho dourado, sustentado por cupidos, mas sem ver seu reflexo.
      Comeava a compreender. Achou que devia ter-lhe parecido bvio, e que tinha sido uma tola.
      Como no percebeu que havia algo de estranho no fato de o duque no querer v-la antes do casamento, deixando que todos os arranjos fossem feitos pela me?
      Tinha sido muito pouco inteligente em no compreender, em suas visitas  duquesa, o quanto ela desejava ver o filho casado, A velha mostrou a Syrilla retratos de Aristide em quase todas as idades, e no era difcil perceber que o que mais desejava na vida era ter netos. Inmeras vezes, disse a Syrilla que o castelo era grande demais para um filho nico.
      - Muitas vezes pensei que Aristide era uma criana solitria. Meu marido e eu fizemos o possvel. Convidvamos outras crianas para virem aqui, convidvamos os meninos da aldeia para estudar com ele, mas no era a mesma coisa do que ter irmos e irms.
      - No, claro que no.
      - Talvez isso o tenha tomado um tanto... reservado - disse a duquesa, hesitando. - Talvez no seja to efusivo e extrovertido como muitos franceses.
      Na ocasio, Syrilla no deu muita ateno a isto. Gostou, naturalmente, de ver os retratos do homem que ia ser seu marido e ficou muito comovida, quando a duquesa lhe deu um. Mas tinha suas prprias idias de como seria o duque e como ele se sentia. Agora... Sentiu-se insegura e infeliz. Pela primeira vez desde que soube que ia casar com o duque.
      Aristide entrou no castelo por uma das portas-janelas que davam para o jardim e ficou satisfeito, ao perceber que todos os convidados tinham partido.                                                                                   
      Sabia que os criados estavam arrumando o salo de baile e o de banquete, de modo que foi para uma outra ala, onde havia a vasta biblioteca onde seu pai costumava ficar.
      Havia ali no somente livros, como tambm as mais bonitas mesas e arcas do castelo. Os sofs e as poltronas eram confortveis, e, quando afundou em uma delas, pensou, satisfeito, que no dia seguinte poderia voltar para Paris.
      Estava casado e esperava que sua me estivesse satisfeita. Foi o que pensou, quase com raiva.
      Quando saiu do castelo, depois de concordar com o casamento, voltou para a cidade com a sensao de que tinha cado numa armadilha. Apesar da aparncia frgil da me, no acreditava que estivesse to doente como dizia. Quando o cardeal o visitou em sua casa, em Paris, Aristide achou que era a ele que devia culpar pela posio em que se achava.
      - Sua futura esposa  muito bonita, meu rapaz - disse o cardeal. Os lbios do duque tiveram uma expresso desdenhosa.  Estava certo de que sua concepo de beleza era muito diferente da do cardeal. Alm do mais, Paris estava cheia de mulheres bonitas e a casa dele era o lugar onde se podia encontrar o maior nmero delas. Uma coisa, entretanto, o deixava curioso.
      - Por que, Eminncia, escolheu uma de Monceau para minha esposa? Parece-me que uma filha do duque de Foucauld-Fleury teria sido mais adequada. J houve unies entre nossas famlias, h alguns sculos.
      - A nica filha solteira do duque est noiva.
      - No diga! Deixe-me ver, quem mais h, naquela maldita provncia? H inmeras casas famosas, onde o senhor poderia ter feito sua escolha.
      O desprezo da voz dele fez com que o cardeal lhe contasse a verdade.
      - O noivado da filha do visconde de Boulancourt foi anunciado nos jornais uma semana antes de eu ir visit-lo. E o marqus d'ville me disse, simplesmente, que preferia ver a filha morta que casada com voc!
      Se esperava escandalizar Aristide, estava muito enganado. O rapaz apenas jogou a cabea para trs e deu uma gargalhada.
      Por um momento, pareceu esquecer sua displicncia e cnica indiferena.
      - Bravos para d'Uville! Pelo menos  sincero. Acredito que o conde de Monceau tambm pense assim, mas acha que um ducado e uma isca muito apetitosa para ser recusada.
      - Pelo contrrio. Nem meu amigo, o conde de Monceau, nem a filha conhecem a sua reputao.
      O duque fez uma cara ctica, e o cardeal continuou:
      - Garanto-lhe que  verdade.  O conde leva uma vida isolada e a filha  muito inocente, ignorando tudo que se passa fora da aldeia onde vivem.
      - Que delcia! Uma jovem caipira, que s pensa na terra e provavelmente cheira  terra!
      O cardeal sentiu o sangue subir-lhe  cabea e teve o impulso pouco cristo de dar um soco na cara de Aristide para apagar aquele sorriso cnico. Mas a sabedoria que sempre o amparava fez com que se controlasse e calasse.
      Que o duque descobrisse por si mesmo quem era Syrilla. "Uma jovem caipira". Francamente! Logo, ele descobriria o quanto se enganava.
      Agora, ali no castelo, no tendo comparecido ao almoo nupcial, o duque de repente percebia que estava com fome e com sede.
      Puxou o cordo da campainha, e um criado apareceu imediatamente.
      - Chamou, senhor?
      - Quero comer alguma coisa e quero uma garrafa de nosso melhor vinho.
      O homem saiu para cumprir a ordem e o duque olhou ao redor, lembrando-se de uma ocasio em que seu pai estava sentado  escrivaninha e a me no sof. J fazia muito tempo...
      Ouviu sua prpria voz, contando-lhe sobre uma moa que conhecera em Paris.
      -  linda, mame! Maravilhosa! E, embora seja bailarina,  filha de um nobre russo.
      -- Ento por que trabalha num palco? - perguntou o pai, sem se voltar.
      - Como tinha um talento excepcional, os pais permitiram que estudasse com o Bale Imperial Russo. Como vocs sabem, os danarinos na Rssia tm status diferente do que tm em nosso pas.
      -  muito bonita? - perguntou a duquesa.
      - Quero que a conhea, mame. Posso traz-la aqui, quando ela estiver livre? Esto ensaiando para um novo bale, mas talvez eu convena a vir num sbado  noite, ou num domingo.
      Houve uma ligeira hesitao por parte da duquesa, antes de responder:
      - Mas, claro, Aristide. Seus amigos sempre sero bem-vindos. Ele teve a impresso de que mais tarde haveria uma discusso entre os pais por causa do convite, mas, tendo conseguido o que queria, beijou a me e saiu para o jardim.
      Cada flor, cada movimento das folhas agitadas pela brisa faziam com que se lembrasse de Zivana.
      Nunca tinha imaginado que uma mulher tivesse tanta graa ou um encanto que no parecia deste mundo. Ela havia conquistado no apenas seu corao, mas tambm sua imaginao.
      No poderia haver melhor ambiente para a beleza dela do que o grande castelo de pedra que tinha pertencido a seus ancestrais, com os dois lagos refletindo as torres, os torrees e as esttuas no telhado.
      Suas lembranas foram interrompidas pelos criados que trouxeram grandes travessas de comida, depositando-as numa mesinha ao lado dele. S que agora o duque no estava mais com fome.
      - Sirva o vinho e v dizer  minha esposa que desejo ir v-la. O criado inclinou-se e saiu.
      O duque tomou um gole de vinho. Pensou que, quanto mais depressa cumprisse seu dever de marido, mais depressa poderia voltar  vida a que estava acostumado.
      Percebeu que no tinha idia de como era sua mulher. Quando chegou ao castelo, na vspera, a me lhe disse que havia um retrato da noiva no meio dos presentes mandados pelo conde, mas Aristide no se deu ao trabalho de ir v-lo.
      Que importava a aparncia dela? Depois daquela noite, pretendia deix-la e voltar para Paris.
      Apenas uma mulher tinha importncia em sua vida, e ela...
      Apertou os lbios e os olhos adquiriram uma expresso sombria, enquanto tomava um gole grande de vinho.
      Os fantasmas do passado fizeram com que as rugas sob os olhos se tornassem mais fundas e a expresso de cnico desprezo deu a rosto um ar ainda mais sinistro.
      Levantou e viu seu reflexo no espelho, no outro lado da sala. Ergueu o copo, com ar zombeteiro.
      -  prosperidade! E ao futuro duque, para que perpetue o nome que eu tanto dignifiquei!
      Ainda estava de copo erguido, quando ouviu a porta se abrir atrs dele. Por um momento no se virou. Quando o fez, achou que estava enganado. Aquela no era a esposa que esperava ver e sim, uma jovem pouco mais do que uma criana.
      Syrilla olhou para ele e o duque fitou-a, atnito, examinando seus cabelos dourados, os olhos azuis e a pele acetinada.
      Era um conhecedor da beleza feminina e notou a graa do corpo esbelto e a elegncia com que ela mantinha a cabea.
      Syrilla fez uma profunda reverncia e disse:
      - Monseigneur! Eu queria tanto lhe falar!
      - Como foi que me chamou?
      - Monseig... neur.
      - Isto  um ttulo reservado aos dignitrios da Igreja ou aos prncipes de sangue real.
      - Sei disto. Mas foi assim que sempre pensei em... voc.
      - Sempre?
      - Desde a primeira vez que o vi. O duque ergueu as sobrancelhas.
      - No me lembro de ter-me encontrado com voc.
      Syrilla riu.
      - No seria provvel que lembrasse. Eu disse que o vi, o que  verdade, mas voc no me notaria no meio de mil, ou talvez duas mil pessoas.
      O duque indicou o sof e perguntou:
      - No quer sentar e contar como foi? 
      Syrilla sentou-se e ele voltou para sua poltrona, examinando o rosto da esposa. O cardeal tinha razo, pensou. Era de fato muito bonita, mas s Deus sabia o que poderia ter em comum com aquela criana!
      No que isto tivesse importncia, j que ele ia voltar para Paris no dia seguinte.
      - O que queria contar? - perguntou.
      - Eu estava pensando que voc  exatamente o mesmo de h nove anos... No, no  verdade. Parece triste, agora... e posso compreender isto.
      - No estou entendendo. Quando foi que me viu pela primeira vez?
      - Achei que ia adivinhar. Foi no torneio que houve aqui no castelo, quando voc fez vinte e um anos!
      - Mas,  claro! Tinha esquecido. Meus pais reviveram os torneios que se realizavam nos tempos medievais.
      - E voc era o Cavaleiro Branco - disse Syrilla, docemente.
      A expresso de seus olhos e o tom de voz fizeram com que o duque percebesse que tinha ficado impressionada com sua aparncia, quando usou a armadura brilhante que tinha pertencido a seus antepassados.
      O torneio havia sido preparado com arte e ensaiado com cuidado. O Cavaleiro Negro, seu adversrio, obteve duas vitrias pequenas. Depois, Aristide o desafiou e, naturalmente, como se tratava de uma representao, saiu vencedor, o bem triunfando sobre o mal.
      O duque lembrou-se dos aplausos da multido nas arquibancadas, pessoas que tinham vindo de perto e de longe, em Tourane, para assistir a um espetculo to interessante.
      A assistncia era alegre, barulhenta e bem-humorada, tendo tomado bastante cerveja e cidra servidas fartamente. Nas arquibancadas, as mulheres bonitas e jovens vestiam trajes medievais.
      Lembrou-se tambm da prenda que uma senhora lhe entregou formalmente. Mas, na ocasio, ele achou, romanticamente, que a nica prenda que interessava era a miniatura de Zivana que carregava num medalho ao pescoo.
      Talvez, pelo fato de estar lutando por uma criatura que amava, tivesse parecido muito ousado e romntico.
      - H nove anos... - disse, pensativo.
      - Eu tinha nove anos - contou Syrilla. - Mas nunca me esqueci de sua aparncia... e como voc inspirou todos que o viram.
      - Era apenas uma representao.
      Houve um momento de silncio. Syrilla perguntou:
      - Posso lhe dizer uma coisa, agora que estamos ss?
      - Sim,  claro. Ainda no tivemos oportunidade de conversar.
      - Eu no compreendia... No soube, at h poucos minutose... o que voc sente.
      O duque ficou perplexo. No podia acreditar que a me tivesse contado quela criana quais as suas intenes em relao  esposa e ao futuro de ambos.
      Na vspera,  noite, assim que chegou de Paris, disse claramente o que pretendia fazer, quando a duquesa falou como se achasse que ele ia ficar no castelo durante algum tempo.
      - Concordei com seus desejos, mame. Renunciei  minha liberdade porque voc me pediu, e vou providenciar para que tenha o neto que tanto deseja. Mas  s o que farei! - Depois de uma pausa, acrescentou, com firmeza: - Fizemos um trato, voc e eu, e vou cumprir minha parte.
      - Que quer dizer com isto, Aristide?
      - Quero dizer que pretendo voltar para Paris e morar l.
      - Para... sempre? - perguntou a me, com voz trmula.
      - Enquanto me convier. Minha mulher pode ficar aqui e lhe fazer companhia, mas no pretendo deixar que ela interfira em minha vida, como no vou interferir na dela.
      - Mas... Aristide!
      - No adianta discutir, mame. Nada do que possa dizer me far mudar de opinio. Uma noite deve bastar para que seu sonho se realize. Depois, no ter mais nenhum domnio sobre mim.
      Sabia que estava sendo brutal. Ao mesmo tempo, lutava para se libertar dos  cordes de seda com os quais a duquesa procurava prend-lo.
      Houve outro silncio, e percebeu que a me lutava para conter as lgrimas.
      Dirigiu-se para a porta.
      - Boa-noite, mame. - Saiu, antes que ela pudesse responder.
      Agora, ali na biblioteca, disse a si mesmo que precisava tornar clara sua posio diante de Syrilla e ficou imaginando por onde deveria comear.
      Achando isto difcil, falou bruscamente:
      - Diga o que queria dizer.
      Primeiro, ela arregalou os olhos. Depois, inesperadamente, levantou-se e se ajoelhou ao lado dele.
      - Eu no tinha compreendido, at h pouco, o quanto voc sofreu h dez anos - disse suavemente.
      O duque ficou tenso.
      - Quem lhe contou?
      - Depois que sa do quarto de sua me, ouvi duas senhoras conversando. A mais velha dizia o quanto... voc havia amado... e como perdeu tragicamente este amor. Oh, agora compreendo!
      -- Compreende o qu?
      - Que casou apenas para agradar sua me. Que se dedicou a um ideal e que s concordou com o casamento por ser este o desejo dela. Sempre soube que tudo que voc fizesse ou pensasse seria nobre, e esse grande amor  o que eu esperaria de voc.
      O duque olhava para ela atnito, mas Syrilla no percebeu e continuou:
      -  o amor puro, desinteressado, dos trovadores que se dedicaram, assim como voc, a servir  dama que adoravam at o dia de sua morte. Agora que sei o que aconteceu, prometo que no lhe darei trabalho e que o ajudarei para que ningum jamais venha a saber.
      - Saber o qu?
      - Assim como o seu amor  sagrado e no deve ser comentado por estranhos, o arranjo entre ns dois permanecer secreto. Embora eu seja sua esposa de nome, respeitarei o caminho que escolheu e procurarei incomodar... o mnimo possvel.
      Pela primeira vez na vida, o duque ficou perplexo a ponto de no encontrar palavras.
      A admirao nos olhos de Syrilla no lhe escapou, nem a expresso da voz, como se ela falasse de uma coisa sagrada.
      Como poderia explicar quela criana que no havia se dedicado a nenhum ideal e que o que acontecera no passado era realmente a causa dele ter-se tornado to cnico?
      Fazendo um esforo, conseguiu perguntar:
      - Est me dizendo que acha que no devo fazer de voc minha esposa?
      - Sei que talvez fizesse isto como um dever para com sua me, mas sei tambm que iria contra seus sentimentos mais profundos; seria como trair o amor que est em seu corao. - Desviou o olhar, encabulada, e acrescentou: - A senhora que ouvi conversando com a outra disse que voc tem um santurio, ou uma capela, aqui no castelo, onde guardou todas as coisas que pertenceram  mulher que amou. Posso compreender que seu corao tambm esteja l. Aquela senhora disse tambm que as mulheres agora nada significam para voc. Ento, como sou mulher, embora legalmente sua esposa, nada posso significar para voc e... aceito isto.
      Olhou para ele, com enorme admirao.
      - No creio que outro homem pudesse ser to maravilhoso e to nobre, e, como eu o amo desde criana, agora o amo e venero mais do que possa lhe dizer.
      O duque tinha a impresso de estar sonhando. Como explicar que ela havia interpretado mal o que tinha ouvido?
      As mulheres nada significavam para ele!
      Quase riu, pensando nas inmeras mulheres que tinham passado por suas mos; tantas que, em alguns casos, no se lembrava mais dos nomes nem dos rostos.
      Mas, como dizer isto  sua esposa, ajoelhada a seus ps e fitando-o com um ar de adorao, como se fosse um santo?
      Nunca, entre todas as mulheres que conhecia, houve uma que o olhasse deste modo. Isto o constrangia um pouco.
      Tentou, com dificuldade, explicar a Syrilla que estava enganada.
      - Voc me viu como o Cavaleiro Branco, quando tinha nove anos e eu, vinte e um. Agora, tenho trinta e mudei muito.
      O rosto de Syrilla iluminou-se com um sorriso.
      - Claro. Papai diz que aquele que no se torna mais sbio a cada ano, a cada ms, a cada minuto,  um tolo. Viemos ao mundo para aprender e, naturalmente,  medida que nos desenvolvemos, ficamos conhecendo mais e acho que deveramos sentir mais.
      Fez um gesto vago, como se temesse que o duque no a compreendesse.
      - Posso imaginar o que sentiu, quando aconteceu aquela tragdia. Deve ter ficado arrasado, mas agora deve estar ainda mais resolvido do que na poca a se dedicar ao seu sentimento.
      O duque teve a impresso de que estava ficando hipnotizado pelo que ela dizia.
      - Preciso  lhe  explicar,  Syrilla,  que no  deve ter essas  idias romnticas a meu respeito, sou humano; no a figura cavalheiresca que devo ter parecido a voc, com aquela armadura.
      Syrilla levantou e, de repente, o duque notou suas covinhas nas faces.
      - Agora est querendo se diminuir e negar sua grandeza. Mas no vou lhe dar ouvidos. No deve fazer isto. Estou satisfeita, plenamente satisfeita, em ser sua esposa e o admiro porque  tudo o que um homem deve ser.
      No esperou pela resposta e se dirigiu para uma das janelas. O sol iluminou seus cabelos, e o duque pareceu ver uma aurola. Ela disse, com voz trmula:
      - H muitas coisas que podemos fazer juntos, aqui. Quero visitar os vinhedos, quero que me fale dos tesouros que h nesta casa, porque tenho certeza de que cada um deles tem uma historiai E quero muito v-lo pescar um peixe no lago.
      De novo, as covinhas apareceram em seu rosto. Ela continuou:
      - No sabe como estes lagos so uma tentao para seus vizinhos. Muitos dos convidados me disseram, hoje, que, como voc nunca est aqui, eles se sentem tentados a vir pescar suas trutas. E um deles avisou que, se voc no tomar uma providncia sobre os veados que so numerosos demais, ele mesmo vir ca-los.
      Preciso explicar que amanh vou para Paris, pensou o duque. Mas, por um motivo qualquer, as palavras no foram pronunciadas.
      Ele levantou e Syrilla se aproximou, dando-lhe a mo, como uma criana confiante.
      - Acha que h tempo de irmos ver os jardins, antes do jantar? Sempre tive vontade de fazer isto, quando vinha aqui, mas achei que seria mais divertido irmos juntos. - Fez uma pausa e sorriu. - Tambm tenho muita vontade de conhecer os lugares onde brincou em criana e, mais ainda, o lugar onde o vi pela primeira vez, quando se realizou o torneio.
      O duque achou que devia fazer alguma coisa para ser agradvel, depois da maneira como se comportara durante o casamento.
      - Sim, tenho certeza de que h tempo. E o jantar pode esperar. Os olhos de Syrilla brilharam.
      - O que os chefs vo dizer, se estragarmos seus sufls?
      - Que estrague!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
CAPTULO IV
      
      
      Syrilla conteve o cavalo com dificuldade, olhou por sobre o ombro e disse:
      - Ganhei!  Ganhei!
      O duque emparelhou o cavalo com o dela, achando que nunca tinha visto uma mulher montar melhor, ou que, apesar da fragilidade, tivesse mos to firmes.
      Tinham cavalgado pelo parque onde o torneio havia se realizado e onde Syrilla o vira com sua armadura reluzente.
      Assim que a viu montada no puro-sangue rabe, o duque soube que era uma grande amazona. Claro que, mesmo assim, ele poderia ter vencido facilmente a corrida. Mas, num impulso que ele mesmo no compreendeu, deixou que Syrilla alcanasse primeiro o ponto de chegada. Era uma coisa que nunca pensou que chegaria a fazer, pois sempre, nos mnimos detalhes, desejava dominar as mulheres que o acompanhavam.
      - Voc monta muito bem - disse, ao juntar-se a ela.
      - Tenho a impresso de que, mais uma vez, foi cavalheiro.
      - muito perspicaz. Ou talvez deva dizer, muito inteligente, Syrilla.
      - Tenho certeza de que no gostaria que sua esposa fosse diferente.  to inteligente que tenho medo de aborrec-lo com minha estupidez.
      - Como sabe que sou inteligente? - perguntou, realmente curioso.
      - Sua me me mostrou todos os prmios que ganhou na escola e na universidade.
      - Coisas que eu disse de cor, como um papagaio.
      - No acha que acredito nisto, no ? Papai sempre diz que no  o que a gente l que importa, mas a maneira com que novos horizontes se abrem para a mente.
      - H muito tempo que deixei de procurar novos horizontes.
      - Isto no  verdade - protestou Syrilla. - E, se me acha inteligente,  porque, no incio, sempre acreditei que um dia pudesse conversar com voc, como estou fazendo agora.  E, por isto,  me preparei.
      Mais tarde, o duque acharia extraordinrio poder conversar com Syrilla de um modo como nunca tinha feito com qualquer mulher. Com as outras, a conversa, se  que havia conversa, sempre se centralizava na prpria mulher e na atrao que ela exercia sobre ele. Com Syrilla era muito diferente. Ela lhe fazia inmeras perguntas, porque estava interessada e curiosa, mas contribua com suas opinies, e o duque se sentia estimulado, como h muito tempo no acontecia.
      Percebeu que muito do que Syrilla dizia devia ter aprendido com o pai. Ao mesmo tempo, tinha idias prprias e parecia encarar as coisas de um ngulo diferente do que ele esperava.
      - Como  que sabe tanta coisa a respeito do Oriente? - perguntou ele, durante uma discusso. - Voc me disse que nunca viajou.
      Os olhos de Syrilla brilharam.
      - Muita gente pode viajar pelo mundo inteiro e no ver nada mais do que o seu quintal. Eu gostaria de conhecer os lugares sobre os quais falamos. Por outro lado, tendo estudado muito sobre estes lugares, tenho a impresso de que j estive l, to reais me parecem.
      - Muitas moas da sua idade estariam pensando em homens, no em livros e em runas do passado.
      - Sempre pensei em um nico homem e procurei me tornar digna dele.
      O duque teve uma expresso ctica.
      - Deve ter havido outros em sua vida, alm de um Cavaleiro Branco, um mito.
      - Claro que houve outros. Houve o cara, que, quando eu usava um chapu novo na igreja, sempre desviava o olhar. Creio que achava que eu era uma das tentaes de Santo Antnio! - As duas covinhas surgiram de novo em seu rosto. Ela continuou: - E houve tambm o filho do fazendeiro Bastie. Certa vez, ele me trouxe meio porco para demonstrar sua afeio, mas ficou to vermelho quando me deu o presente, que era difcil saber quem era o porco e quem era o homem!
      O duque no pde deixar de rir.
      - Sabe perfeitamente, que estou falando de namorados, Syrilla. Nos castelos vizinhos ao seu deve haver inmeros rapazes nobres que, tenho certeza, andaram por todo o pas  procura de algum como voc!
      - Em Monceau-sur-Indre, devo ter sido invisvel. Alm disso, eu me sentia muito feliz em morar com papai e pensar em voc.
      - Para dizer a verdade, no acredito nesta obsesso a respeito de um homem que voc viu apenas uma vez - zombou o duque. - Est abusando de minha credulidade, Syrilla, embora seja extremamente lisonjeiro pensar que bastou olhar para mim, quando voc mal tinha sado do bero, para que eu significasse tanto durante todos esses anos.
      - Mas  verdade! - disse ela, com uma nota de sinceridade que no podia ser fingida. - E lembre-se de que, embora eu o tenha visto apenas uma vez, havia muitos retratos seus nos livros da biblioteca de meu pai.
      Ele ergueu as sobrancelhas e ela explicou:
      - Talvez se chamassem So Jorge, Sir Galahad, Jaso em busca do Velocino de Ouro, ou Ulisses, que passou pela ilha das sereias, mas, fossem quais fossem as figuras, para mim eram sempre voc.
      Os olhos de Syrilla se iluminaram. 
      - Eu costumava inventar histrias nas quais voc matava o drago e realizava inmeros atos e herosmo e bravura, mas agora acho que eu devia t-lo imaginado como um trovador, cantando: - Se o Cu pudesse ser ganho pelo amor e por preces, ento eu entraria l imediatamente.
      O duque sacudiu a cabea, parecendo exasperado, e Syrilla disse, vivamente:
      - Perdoe-me. Talvez ache impertinncia minha falar de seu verdadeiro amor. No farei mais isso.
      Ele levantou da cadeira onde sentara ao lado dela, depois do jantar, e foi at a janela, olhar o pr-do-sol atrs das rvores altas.
      - Nada do que possamos dizer um ao outro ser impertinncia, Syrilla, e  por isto que quero...
      Fez uma pausa, procurando palavras, mas Syrilla levantou e se aproximou.
      -  exatamente o que esperava que dissesse. Papai e eu sempre conversamos com toda a franqueza, e detestaria que houvessem barreiras entre voc e eu. Amo-o e nada posso lhe dar, a no ser meus pensamentos.
      O duque queria dizer que ela poderia lhe dar muito mais, mas, ao ver a expresso inocente dos olhos azuis mudou de assunto,bruscamente:
      - Conte-me por que voc anda com tanta graa. Deve ter tido aulas de dana. 
      Ela riu.
      - Os nicos professores dessas coisas em Monceau-sur-lndre so os pssaros, ou, talvez, ou faunos nas matas.
      - Quer dizer que no teve aulas de dana? - Viu, com surpresa, uma expresso ansiosa surgir no rosto dela.
      - Eu estava com esperana de que no me perguntasse isto.
      - Por qu?
      - Porque nunca dancei... Quero dizer, com um homem.
      - Nunca foi a um baile? - perguntou, incrdulo.
      - Depois que mame morreu, no havia ningum para me levar, mesmo que eu fosse convidada. E papai detestaria bancar minha "bab" e ficar sentado ao lado das mes das outras moas. - Sorriu, mas depois seu rosto adquiriu novamente uma expresso ansiosa.
      - No quero que tenha vergonha de minha ignorncia. Talvez possamos encontrar um professor para que, depois que eu tiver aprendido direito, possa ir a um baile com voc. 
      - No h pressa - respondeu o duque, maquinalmente.
      - Sei que no tem tempo para essas frivolidades. Eu ia lhe perguntar se h alguma maneira de ajud-lo em seu trabalho em Paris.
      - Meu trabalho?
      - Sim. A duquesa me falou sobre isso.
      -  mesmo? E que foi que ela disse?
      - Perguntei-lhe o que voc fazia e ela respondeu: "Meu filho se ocupa das pessoas que so infelizes".
      O duque sorriu ao ouvir o subterfgio da me.
      - Ouvi falar muito da pobreza e da misria que existem nos cortios - continuou Syrilla. - E que o povo est faminto e muitas pessoas feridas por causa dos tumultos.
      - Creio que  verdade.
      Ficou pensando que nunca havia se preocupado com essas coisas, a no ser pelo receio de que suas propriedades fossem danificadas pelos revolucionrios.
      -  exatamente o que espero que voc faa: que ajude essa gente - disse Syrilla. - Talvez, se no for muito incmodo, eu possa acompanh-lo a Paris algumas vezes e ver o seu trabalho.
      O duque imaginou-a, de repente, no meio de algumas de suas festas escandalosas. Sabia perfeitamente como mulheres do tipo de Suzanne, Aimie e Rosette iriam escandaliz-la e deix-la perplexa.
      - No quero fazer nada que lhe desagrade, mas nem mesmo o mais santo dos homens desprezou a ajuda de seus discpulos. - Deu um sorrisinho trmulo. - Sou uma aluna de muito boa vontade, como bem sabe.
      - Estvamos falando de dana, no das srdidas condies de Paris. Se no aprender a danar e no for a nenhuma das festas as quais ser certamente convidada como minha mulher, de que adiantaro todos esses vestidos bonitos de seu enxoval?
      Syrilla olhou para o vestido de gaze cor-de-rosa, de saia rodada e drapeada, enfeitada com botes de rosa e feitas de tom azul-claro.
      - Nunca tive roupas to bonitas. Sabe que foi sua me que me deu tudo isso de presente?
      - No tinha a mnima idia.
      - A senhora foi muito boa. Compreendeu que, como eu levava uma vida muito isolada no campo, no entendia quase nada de moda. Ento, mandou minhas medidas para Paris, descreveu meu tipo e recebi depois todos esses vestidos elegantes. Fiquei comovida com tanta generosidade.
      O duque achou que a generosidade de sua me tinha por finalidade fazer com que Syrilla se tornasse atraente para ele. No havia dvida de que os vestidos, que valorizavam a brancura dos ombros e a cintura fina de Syrilla, a tornavam muito bonita.
      Mas havia alguma coisa mais do que beleza, pensou ele, que a fazia diferente das outras mulheres. Era o fato de ser to viva. Quando estava animada, parecia brilhar e era como se seus olhos captassem a luz do sol.
      - Preciso dizer  sua me que voc admirou meus vestidos... me perdoar, se eu lhe pedir uma coisa muito... pessoal?
      - Acho que concordamos em que seramos francos um com o outro - respondeu o duque.
      - Ento, quer dizer  sua me o quanto a ama? Voc  a razo da existncia dela. Sua me pensa em voc, reza por voc, e acho que cada palavra sua est gravada no corao dela.
      O duque no respondeu. Dali a um minuto, Syrilla continuou:
      - Ela est to contente com o nosso casamento! Acho que se voc no tivesse concordado, ela morreria, acreditando que no tinha mais nada por que viver.
      - Ela lhe disse isto? - perguntou o duque, asperamente.
      - No, claro que no! Mas percebi isto, instintivamente, quando conversou comigo sobre voc e ao ver a felicidade de seu olhar, quando fui ao seu quarto vestida de noiva.
      - Eu devia ter ido com voc.
      - Agora compreendo por que desapareceu. Mas nunca deve deixar que sua me desconfie, por um momento sequer, de que no estamos agindo como... como um... noivo e uma noiva comuns.
      - Sabe que ela quer que eu tenha um herdeiro? - perguntou o duque. Syrilla inclinou a cabea, e ele continuou: - Ser justo priv-la do que deseja to ardentemente? 
      Esperou pela resposta de Syrilla, ficando estranhamente tenso.
      - Pensei nisso... e compreendo que  importante para voc um dia ter um herdeiro.
      - E qual a soluo?
      - Pensei... e, por favor, no ache isto presuno de minha parte..., que talvez, um dia, quando nos conhecermos melhor, voc me considere uma amiga e sinta que, como amiga, eu poderia... lhe dar um filho.
      Estas palavras foram ditas com muita doura. Como o duque no respondeu, ela explicou:
      - Compreendo que  difcil voc pensar em mim desse jeito e no sei muito bem como  que um homem e uma mulher amam... para ter um... beb. Mas, embora nunca possa me amar, ou me dar seu corao, seria maravilhoso para mim ter... um filho seu.
      O duque aproximou-se. Mas antes que pudesse tocar em Syrilla, ela continuou:
      - Estou falando apenas de uma coisa que talvez possa acontecer no futuro. Talvez leve muito tempo, at voc sentir que pode tocar em mim desse jeito. No quero que pense que no compreendo sua fidelidade ao seu voto de castidade. Oh, por favor, perdoe-me por ter falado de novo nisto. Mas voc me perguntou... e estou lhe contando meus pensamentos.
      - Estou ouvindo com grande interesse, Syrilla.
      Era a oportunidade de tornar as coisas claras para ela, pensou o duque. Mas, por algum motivo, deixou o momento passar e se viu falando de outros assuntos.
      Mais tarde, entretanto, quando foi para o quarto, resolveu que bastava de conversa fiada. Faria com que Syrilla visse claramente que era seu marido e que pretendia agir como tal.
      Pensou como teria rido de outro homem, se lhe contasse que os sonhos poticos de uma jovem o impediam de fazer amor com ela e de trat-la como um homem deve tratar a prpria esposa.
      Inmeras anedotas sobre homens impotentes lhe vieram  memria e resolveu que bastava de tolices e que, quanto mais cedo voltasse para Paris, melhor.
      Enquanto o criado de quarto o ajudava a se despir, ficou zombando de si mesmo. Achou que devia estar se tornando senil; ele, que depois de ter sido amante de todas as mulheres que o atraam, no sabia como explicar a uma moa de dezoito anos o que desejava dela.
      E s porque  to inocente que acho isso difcil, pensou. Mas talvez seja igual a todas as outras e esteja representando um papel.
      Embora zombasse de sua hesitao, sabia que nenhuma mulher, por melhor atriz que fosse, poderia apresentar aquele ar de adorao que havia no olhar de Syrilla quando o fitava, nem fingir tanta sinceridade ao falar.                                                                                     
      Essa concepo de mim como um cavaleiro metido numa armadura brilhante  absurda!, pensou. Se um de meus amigos ouvisse, Syrilla falar desse jeito, morreria de rir!
      Conhecia bem sua reputao, mais ainda do que aqueles que oi criticavam. Sabia quais os resultados de suas aventuras e se divertia ao ler nos jornais as notcias a este respeito.
      Resolvera desafiar as convenes, escandalizar homens e mulheres e ser conhecido por seus atos imorais.
      Tinha sido bem sucedido, mas, estranhamente, isto no apaziguou o sofrimento que fazia com que agisse assim. Nem cicatrizou a ferida em seu corao.
      - Diabo, estou ficando mrbido! - disse, em voz alta. Estava sozinho no quarto, o criado tendo-se retirado, olhou em volta do aposento imenso, de lambris  entalhados, teto pintado e cama enorme, de dossel de veludo, com o braso da famlia na cabeceira.
      De repente, ficou furioso e comeou a falar mais alto ainda:
      -  esta maldita casa! So os fantasmas dos antepassados espiando por sobre meus ombros! Vou voltar para os esgotos de Paris, onde me sinto  vontade.
      Era como se desafiasse seus ancestrais. Ao mesmo tempo, parecia que eles procuravam alcan-lo e pux-lo para o crculo da famlia e coloc-lo de novo sob sua influncia. Eles o chamavam. Aristide quase podia ouvir suas vozes e ver sua expresso de piedade e de acusao.
      Teve vontade de gritar: "No vou lhes dar ouvidos! Escapei uma vez e escaparei de novo!"
      Pegou uma vela que estava em cima da mesa da cabeceira. O movimento fez com que a chama estremecesse e uma gota de cera escorresse pelo castial dourado.
      O duque abriu a porta de comunicao entre seu quarto e o da esposa. Havia uma passagem estreita, que atravessou, no fazendo rudo no cho atapetado.
      Usava um roupo de veludo vermelho sobre o camisolo e seus chinelos de veludo eram bordados com o braso da famlia.
      Fazia muitos anos que no abria a porta do "quarto da rainha". Na realidade, desde menino, quando seus pais dormiam ali. De manh, costumava ir de um aposento ao outro, primeiro lambiscando qualquer coisa do desjejum da me e depois indo ver o criado fazer a barba do pai.
      No quarto da me sempre havia o perfume de flores em vasos grandes sobre as mesas douradas. O duque sentiu agora o odor das flores, mas o perfume era diferente. Era o mesmo que sentiu em Syrilla,  tarde, e lembrava flores primaveris. Achou que era jasmm, a flor que anunciava a primavera.
      Percebeu que tinha ficado sentado em seu quarto durante tanto tempo, que j devia ser bem tarde. Quando segurou a maaneta do quarto de Syrilla, achou que talvez ela estivesse dormindo e no quis assust-la. Virou a maaneta de mansinho e olhou para dentro do aposento. Mas a cama larga com dossel de seda azul estava vazia.
      Depois,  luz das velas acesas de cada lado da cama, viu Syrilla ajoelhada no genuflexrio que ficava na parede oposta. Ela usava penas uma camisola branca e a luz das velas dava a seus cabelos um tom dourado. As mos estavam cruzadas, a cabea, baixa, e os olhos fechados.
      O duque ficou observando-a. De repente, ela ergueu a cabea e olhou a gravura acima do genuflexrio.
      O duque conhecia-a muito bem. Tinha sido trazida de Florena por um de seus antepassados e era a cpia de um quadro de Botticelli chamado Magnijicat. Tinha sido seu quadro favorito, em criana. A madona segurava no colo o Menino Jesus, cercado de anjos, que seguravam uma coroa sobre a cabea dela.
      Foi ento que compreendeu que a beleza de Syrilla tinha a mesma espiritualidade dos rostos dos anjos pintados por Botticelli. A jovem estava com uma expresso radiosa, que no era deste mundo.
      O duque adivinhou para quem ela rezava e o que pedia em suas oraes.
      Como se a pureza de Syrilla erguesse uma invisvel barreira entre os dois, ele fechou a porta devagar e voltou para seu quarto.
      
      O duque estava tomando o desjejum numa saleta oval, reservada exclusivamente para a primeira refeio do dia. Acabou de se servir fartamente de um prato de Fritues, um peixinho do Loire, frito, quando Syrilla entrou.
      - Por favor, no levante - disse ela, ao ver o movimento do duque. - Sei que ainda  muito cedo, mas est um dia to bonito, que fiquei ansiosa para sair a cavalo, como voc me prometeu, para irmos visitar os vinhedos.
      - No me esqueci. Para dizer a verdade, mandei um recado para o administrador nos esperar. Tenho certeza de que ele vai querer que voc experimente os vrios vinhos que fabricamos, de modo que precisar ter cuidado para no cair do cavalo, na volta!
      - No creio que eu deva beber muito.
      - No deixarei que beba.
      Syrilla sorriu de um jeito que fez com que ele pensasse que qualquer homem haveria de querer tomar conta dela.
      - J tomou seu desjejum?
      - Sim, obrigada. Mas no to substancial como o seu. Posso roubar um croissantl e no pensei em pedir mel. Garanto que o mel de suas abelhas  melhor do que qualquer outro em Touraine. 
      No esperou que ele lhe desse licena para passar manteiga e mel num croissant.
      - Se eu lhe desse ouvidos, ia ficar muito convencido, no apenas a respeito de minha esposa, como das coisas que possuo - disse com ar divertido.
      - E por que no? So melhores do que as de qualquer outra pessoa! Ainda ontem, ouvi o chefe dos cavalarios dizer que no h melhor cavalo do que o que voc montou, desde aqui at Nice.
      O duque riu.
      - E, provavelmente, o vaqueiro acha que minhas vacas do o melhor leite e meu gado, a melhor carne, desde aqui at Cherbourg!
      - E garanto que tm razo - respondeu Syrilla, seriamente. - Os convidados ao almoo de casamento disseram que seus vinhos so deliciosos.
      O duque acabou de comer e comentou:
      - No me lembro de ter tanto apetite h anos. Acho que o ar daqui  melhor do que qualquer outro.
      Estava brincando com Syrilla. Sabia que no era o ar de Paris que o impedia de ter fome de manh, e sim, a quantidade de bebida que ingeria  noite e os excessos a que se entregava.
      Agora, sentia-se sadio e atltico, ao seguir Syrilla at o hall, onde um criado lhe entregou o chapu, o chicote e as luvas.
      Os cavalos os esperavam l fora, e o duque achou que o traje de montaria de Syrilla, de fusto branco, ltima moda em Paris, lhe assentava ainda mais do que o verde-plido que tinha usado na vspera.
      Um cavalario ajudou-a a montar. O duque ia montar seu garanho, que dois empregados tinham dificuldade em conter, quando Pierre de Bethume desceu a escada correndo.
      - Chegou uma carta de Paris que exige sua ateno imediata.
      - Imediata?
      - O criado que a trouxe disse que  urgente e est esperando para levar sua resposta para monsieur Layfette.
      Era o advogado do duque, e, se Pierre dizia que era urgente, ento, era mesmo.
      O duque olhou para Syrilla, cujo cavalo j estava impaciente, e disse:
      - Siga devagar, que logo a alcanarei.
      Ela sorriu e pediu:
      - Monsieur de Bethume, por favor, no o detenha por muito tempo. Temos muita coisa para ver, antes do almoo.
      - Serei o mais breve possvel, madame.
      Havia no olhar de Pierre uma indisfarvel admirao. Depois, foi atrs do duque, que subia a escada apressadamente.
      - Que aconteceu?
      - Encrenca, senhor.
      - Que espcie de encrenca?
      Pierre entregou-lhe a carta do advogado, que o duque leu, com ar sombrio.
      Uma mulher, uma das cocottes mais desacreditadas de Paris, com quem ele andara durante algum tempo, tinha sido presa. A polcia encontrou em seu poder inmeras jias valiosas que ela havia roubado dos homens com quem tinha tido relaes. Do duque, roubara um anel de esmeraldas com monograma, vrias outras peas identificveis e umas abotoaduras de safira e brilhantes.
      O advogado dizia na carta que a polcia queria que ele e todos os homens que ela havia lesado apresentassem queixa. Isto faria com que fosse condenada a longos anos de priso, mas os nomes dos prejudicados teriam que ser citados no tribunal. O duque leu a carta lentamente e disse:
      - No me importo de perder as jias, mas as peas de ouro pertencem  coleo da famlia. Foram, na realidade, dadas a um de meus antepassados por Carlos Magno. No me agrada a idia de perd-las.
      - No acha possvel que a polcia as devolva, sem que o senhor acuse a mulher? - perguntou Pierre.
      - Ela dir que foram um presente meu. Essas mulheres sempre encontram uma desculpa.
      - Ento, o senhor vai process-la?
      O duque hesitou. No sabia por que, mas, de repente, no gostou da idia de toda Paris ficar sabendo que ele tinha convivido com uma mulher que, no apenas era uma mundana, como uma ladra vulgar.
      Era atraente, sem a menor dvida, mas achou srdido que, enquanto dormia, ela tivesse tirado as abotoaduras de sua camisa.
      Refletiu por um momento e decidiu:
      - No vou process-la. Avise todos os joalheiros e aqueles a quem essas mulheres costumam vender os objetos roubados que estou disposto a comprar de volta todas as peas que tiverem o braso de Savigne.
      - Eu esperava que dissesse isto, senhor. 
      O duque ergueu as sobrancelhas.
      - Por qu?
      Por um momento, pensou que o amigo no ia dizer a verdade, mas, quase em tom de desafio, Pierre confessou:
      - Sua esposa poderia ficar sabendo e isto a magoaria. 
      Houve um momento de silncio. Pierre achou que o duque ia repreend-lo por falar a verdade, como tantas vezes havia feito. Mas, com surpresa, ouviu Aristide dizer:
      - Sim, isto a magoaria.
      Virou-se para ir atrs de Syrilla, mas ao sair do escritrio, encontrou o administrador  sua espera.
      O homem tinha uma lista de queixas dos arrendatrios que consideravam os aluguis muito altos, em vista das poucas melhorias que o proprietrio fazia para eles.
      O duque levou algum tempo para resolver esses casos. Quando finalmente montou o cavalo, Syrilla tinha desaparecido de vista.
      Syrilla no pretendia se afastar muito do castelo, mas seu cavalo estava ansioso por galopar.
      Quando olhou para trs, a moa no viu mais a manso. Tinha ido at a orla do parque e  sua frente havia uma mata cerrada.
      Achava que a trilha que o duque tinha aberto na mata e que os dois deviam tomar para ir aos vinhedos ficava  esquerda.
      Mas no tinha inteno de ir mais longe sem o marido. Virou o cavalo, para voltar ao encontro dele. Nisto, apareceram vrios homens, saindo da mata.                                       
      Syrilla fitou-os, surpresa, pois eram lavradores comuns, mas que todos carregavam cacetes e alguns at uns forcados velhos.
      Ficou admirada, quando cercaram seu cavalo e um deles segurou a rdea.
      - Quem so vocs? O que desejam?
      - Onde est o duque?
      O que fez a pergunta era um sujeito mal-encarado, de cabelos compridos caindo-lhe at os ombros, usando roupas velhas e rotas.
      Os outros homens tambm eram estranhos e olharam para Syrilla com uma expresso que a assustou.
      Dois anos antes, no houve nenhum sinal de revoluo em Monceau-sur-Indre, mas isto no tinha impedido Syrilla de ler sobre o que acontecia em outras partes do pas. Sabia que em Paris dois mil soldados e outras pessoas tinham morrido e mais de cinco mil ficado feridas. Em todas as cidades da Frana tinha havido luta e mortes, como Syrilla ficou sabendo pelos parentes de sua me, em Calvados e na Normandia.
      O homem que segurava a rdea comeou a puxar o cavalo para dentro da mata.
      - O que est fazendo? - perguntou ela.
      - Voc vem conosco - disse o homem.
      - No podem me levar. De nada lhes adiantar. Se tm alguma coisa a dizer ao duque, venham at o castelo e falem com ele.
      - Para sermos chicoteados e levarmos um tiro? Pretendamos pegar o duque, mas voc serve. Afinal,  mais do que natural que a nova duquesa veja como seu povo vive.
      Os outros homens resmungavam entre si e pareciam to rudes ei to desagradveis, que Syrilla achou que nada podia fazer, a no ser obedecer.
      Mesmo que o duque a encontrasse agora, temia por ele. Os cacetes e os forcados nas mos dos homens seriam armas eficazes contra um homem que tivesse apenas um chicote.
      De repente, lembrou-se dos crimes cometidos pelos revolucionrios e seu corao comeou a bater mais depressa. No se tratava apenas dos que haviam sido guilhotinados trinta e nove anos antes. Depois disto, inmeras vezes aristocratas que viviam no campo tinham sido perseguidos e at mortos por camponeses. Em alguns casos, suas esposas e filhos tambm foram tratados sem clemncia.
      Embora sentisse a boca seca, Syrilla seguiu de cabea erguida, procurando no ouvir os comentrios rudes e as piadas grosseiras que faziam. Saram do outro lado da mata. Agora, ela via os vinhedos, estendendo-se por quilmetros. As uvas ainda eram pequenas e verdes, mas notava-se que a colheita seria boa.
      Chegando aos vinhedos, os homens viraram  esquerda, seguindo pela orla da mata. Depois de algum tempo, chegaram a um vale oculto por rvores, cortado por um riacho insignificante.
      Tinham caminhado depressa durante mais ou menos meia hora, quando Syrilla avistou um pequeno povoado  frente. Havia vdeiras, mas muito diferentes das que vira antes: no tinham folhas, nem frutos, nem brotos.
      - Est vendo? -- perguntou um dos homens com ar selvagem. - Voc vem de um lugar onde sabem como  que uma videira deve ser.
      - Vejo que estas aqui esto mortas... ou morrendo. O que aconteceu?
      O homem deu uma risada alta e feia.
      - Ela est perguntando o que aconteceu! Acham que devo contar? Talvez ela queira beber o vinho que saiu delas!
      Falou num tom to violento e zombeteiro, que Syrilla ficou amedrontada.
      - Vejo que as plantas foram atacadas por uma doena - disse, Mantendo a calma. - As videiras deviam ter sido arrancadas e queimadas.
      Falava a srio, mas suas palavras foram recebidas com zombaria.
      - Se a duquesa sabe o que deve ser feito, por que no diz ao duque que d a ordem?
      Todos falaram ao mesmo tempo, e Syrilla percebeu que era isto que queriam que o duque visse, que era a queixa de todos.
      Ficou imaginando por que as videiras doentes no tinham sido arrancadas, mas achou que no era seguro falar muito, sem saber o que realmente estava acontecendo.
      Logo depois, chegaram ao povoado, cujas casas estavam em condies precrias. De longe tinham parecido atraentes, mas agora Syrilla notava os buracos nos telhados, as janelas cobertas por sacos e as portas que mal se agentavam nas dobradias.
      Algumas crianas vieram ver os recm-chegados. Bastou Syrilla olhar para elas para saber o que havia. Aquela gente estava faminta!
      Os rostos das mulheres eram cinzentos e enrugados, os ossos das crianas pareciam querer furar a pele, to magras eram elas.
      O grupo passou lentamente pelas casas, e Syrilla achou que as mulheres estavam apticas demais para zombar dela, como os homens tinham feito. Ento, uma velha saiu correndo de uma das casas, carregando algo nos braos.
      O homem que segurava a rdea fez o cavalo parar. A velha estendeu os braos, mostrando um beb de rosto enrugado e olhos fechados, que parecia um recm-nascido.
      - Morto! - gritou a mulher. - Morto! E o que mais vocs esperavam, quando a me no tem nada para comer?
      O homem olhou para a criana por um momento e depois, para Syrilla.
      - A culpa  de vocs! Malditos sejam! Malditos sejam todos os aristocratas. Mataram meu filho! Voc merece morrer!
      Quase cuspiu estas palavras, mas Syrilla no o ouvia. Olhava para a criana e uma coisa lhe veio a lembrana.
      Sem esperar ajuda, desceu do cavalo e, aproximando-se da mulher tirou o beb de seus braos. Tocando com delicadeza o rostinho viu que ainda estava quente, embora parecesse realmente morto.
      Depois, inclinou a cabea e fez o que tinha visto Jacques fazer com a ovelhinha,  respirou fundo e procurou soprar o ar pelos lbios entreabertos do beb.
      Surpresos com esta atitude, todos ficaram em silncio e ningum procurou impedi-la.
      Quando ela soprou pela quarta vez, uma das mozinhas do beb moveu-se ligeiramente e, um segundo depois, ele soltou um gritinho. Foi muito fraco, mas os que estavam perto ouviram.
      -  um milagre! - gritou a velha que tinha trazido a criana. - O beb est vivo!  um milagre! Que Deus seja louvado!  um milagre!
      A criana chorou de novo. Syrilla enrolou-a melhor no cobertor grosseiro e entregou-a  velha.
      - Leve o beb para a me. Recomendo que o mantenha quente e que o alimente assim que for possvel.
      A mulher no pde responder, tal sua emoo. Depois que ela se afastou, Syrilla percebeu que todos a olhavam, incrdulos, parecendo esttuas de pedra. Ento as mulheres fizeram o sinal da cruz.
      --  meu filho! - disse o homem que estava ao lado de Syrilla.
      - Acho que ele vai viver. Agora, que tal me contarem o que est acontecendo e por que as videiras morreram?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
CAPTULO V
      
      
      Todo o mundo comeou a falar ao mesmo tempo e Syrilla achou difcil entender, o que diziam. Ento, ouviu uma palavra, pyrale, e compreendeu o que tinha acontecido.
      Seu pai muitas vezes lhe falou da ameaa de insetos nocivos s videiras. Explicou-lhe que o Cochylis, ou borboleta negra, foi o primeiro encontrado em Campagne em 1771. Sua lagarta vive em sociedade sob uma tenda sedosa que engloba as flores e os bagos da uva que ela devora.                                                                       
      Havia tambm o Ver Blanc du Hanneton, ou borboleta branca, um inimigo particular das videiras novas. E a cochinilha vermelha, que pe seus ovos em junho e cujas larvas, um ms depois, se colocam nos brotos e na superfcie inferior das folhas.
      Todos esses insetos eram temidos pelos viticultores, mas o pyrale] era o  mais temido de todos. O pai de Syrilla contou-lhe que as larvas ficam hibernadas nas  rvores at a primavera. Depois de espalhar seus fios de seda sobre a videira, devoram as flores, brotos e folhas.
      Syrilla lembrou-se do que ele lhe havia contado. Mas eles tinham tido sorte em Monceau-sur-Indre, e as videiras cresceram sem problemas, deixando o conde feliz com sua produo de vinho.
      Agora, ela compreendia a devastao que a praga podia provocar. E sabia que nada havia a fazer, a no ser arrancar as plantas.
      Quando uma videira fica plantada durante talvez vinte e cinco anos, cria razes profundas, e  necessrio muito esforo para arranc-la totalmente. Era preciso que se fizesse um buraco grande  volta de cada rvore morta, com picaretas e ps-de-cabra, e depois pux-la por meio de uma corrente presa a um cavalo.
      Isto era geralmente feito assim que a doena se manifestava, e Syrilla no compreendeu por que isto no havia sido feito ali.
      Quando conseguiu ser ouvida, perguntou quais as providncias tomadas pelo administrador do duque, quando os camponeses lhe contaram o que estava acontecendo.
      - Disse para irmos procurar emprego em outro lugar - respondeu um velho.
      - E isto era difcil?
      -- Quem  que quer saber de ns, nesta poca do ano? - disseram vrios homens ao mesmo tempo. - Na colheita, sim. No somos pagos desde o princpio de abril.
      Syrilla compreendeu por que estavam em andrajos e parecendo famintos.
      Explicaram que, a princpio, se mantinham com verduras de suas hortas, enquanto os homens do povoado iam procurar servio mais longe. Depois, desesperados porque as crianas estavam esfomeadas, mataram as cabras e as galinhas, o que significou que ficaram sem leite e sem ovos. Quando ouviram falar do casamento do duque, resolveram agir de modo violento para que ele tomasse conhecimento do que estavam sofrendo.
      Sabiam que ele saa a cavalo todas as manhs e planejaram lev-lo a fora at a aldeia, para que visse a tragdia com os prprios olhos. Mas no tinham esperado encontrar Syrilla sozinha. Ela percebeu que estavam constrangidos por terem trazido uma mulher, e no, o homem que queriam.
      - O duque vir busc-la - disse um dos camponeses, com ar taciturno. - No vai querer perder a mulher assim to cedo.
      Alguns riram, mas, no, com a rudeza de antes. Agora, olhavam para ela no apenas com respeito como tambm com espanto, e percebeu que o fato de ter feito o que as mulheres consideraram um milagre influa no esprito dos homens.
      Enquanto conversava com eles, as mulheres e as crianas tinham sado das suas casas. Muitas das crianas estavam com feridas no rosto e nas mos e Syrilla sabia que isto era devido  desnutrio.
      Agora compreendia a razo da aparncia daquela gente. No havia dinheiro para comprar linha para remendar as roupas, no havia dinheiro para comprar pregos para consertar as casas. Havia gua no riacho, mas Syrilla achou que,  medida que a comida ia escasseando, as mulheres se sentiam fracas demais at para lavar a roupa! Os rostos plidos e os olhos sem brilho confirmavam isto.
      Finalmente, depois de ouvir tudo que os homens tinham a contar, Syrilla disse:
      - No  preciso eu lhes dizer que o duque no tem a mnima idia do que est acontecendo em sua propriedade. Tenho absoluta certeza de que no foi ele quem deu ordem para que vocs no fossem pagos at que arranjassem emprego. - Todos a ouviam em silncio. - Vou voltar ao castelo e pedir ao duque que venha aqui, para ver com os prprios olhos o que esto sofrendo. Sei que ela tomar as providncias necessrias para que tudo se arranje.
      Fez meno de se dirigir para seu cavalo, mas o homem alto barrou-lhe a  passagem.
      -  Voc no sai daqui. Como podemos saber se o duque no vai nos castigar por termos trazido voc para c? Ele pode mandai os criados e at soldados para nos expulsar, como seu administrado ameaou fazer.
      Falou de um modo truculento, e de novo Syrilla sentiu medo, ai ver que suas palavras faziam voltar aos rostos deles a expresso feroz e taciturna.
      Com esforo, conseguiu sorrir.
      - Muito bem. Fico aqui, esperando. Um de vocs pode ir levar uma carta ao duque, explicando o que aconteceu comigo. Quererem fazer o favor de trazer papel e tinta?
      Isto parecia difcil. Enquanto procuravam o que pedira, alguma! mulheres se aproximaram, encarando Syrilla com olhos arregalado e duas ou trs timidamente tocaram seu traje de montaria. Mas quando a moa sorriu, ficaram mais ousadas e pediram-lhe que as ajudasse com as crianas.
      Syrilla sabia que no havia nada de muito errado, a no ser a subnutrio, mas sabia tambm que, at eles terem dinheiro, no adiantava receitar ungentos e poes. Em vez disso, conversou com as mulheres, dizendo o que seria bom para as crianas, contanto que tivessem frutas e verduras frescas, ovos e leite de cabra.
      Quando trouxeram papel, uma tinta muito fraca e uma pena, que um dos homens apontou, ela sentou e escreveu a carta numa mesa tosca que estava precisando ser lavada e esfregada.
      Depois, dobrou a carta e disse aos homens:
      - Acho que, para economizar tempo, um de vocs que saiba montar bem, deve pegar meu cavalo e ir at o castelo.
      - Vo acusar-nos de t-lo roubado.
      - Neste caso, que o homem v at a mata, deixe o cavalo l, amarrado numa rvore, e siga a p o resto do caminho. Depois que o duque tiver lido meu recado, o homem pode traz-lo at aqui.
      O campons alto no pareceu muito convencido.
      - Como vamos saber se o duque vir sozinho? Se trouxer homens armados, lutaremos e talvez voc saia machucada.
      - O duque vir sozinho porque eu lhe pedi isto - declarou Syrilla.
      Sabia que ainda estava em dvida, mas no havia alternativa. Trs homens disseram que eram bons cavaleiros e ela escolheu o mais moo. Era tambm o mais leve. O rapaz montou e partiu em silncio. Syrilla percebeu que, embora os homens se mostrassem muito falantes e corajosos quando se dirigiam a ela, estavam na realidade apreensivos quanto ao resultado de sua iniciativa ao rapt-la.
      Para deix-los  vontade, sentou  sombra de uma rvore no meio da aldeia e comeou a conversar com as mulheres. Logo, elas sentaram  sua volta, muitas com os filhos no colo.
      Syrilla falou-lhes de sua infncia em Monceau-sur-Indre, como a me havia morrido e quanto sentia sua falta. Contou tambm como havia conhecido o duque no torneio, quando tinha nove anos e ele vinte e um.
      Muitas das mulheres se lembraram do torneio e concordaram, quando a moa disse que tinha sido um espetculo magnfico. Syrilla soube que o duque dera a cada empregado da propriedade uma semana de salrio extra para celebrar a maioridade do filho.
      - Qualquer um de vocs que tenha visto o duque vestido de cavaleiro deve saber que ele sempre defenderia a causa da justia.  por isso que, quando ele souber o que tm sofrido, tomar todas as providncias para resolver a situao.
      
      Depois de procurar em vo por Syrilla no parque, o duque voltou para o castelo para ver se ela havia retornado por outro caminho, tendo-se desencontrado dele.
      - Ela no est aqui - disse Pierre de Bethume.
      - Ento, onde pode estar? No acredito que fosse at os vinhedos sem mim. Para dizer a verdade, atravessei a mata e andei um pouco pelos campos, mas no havia sinal dela.
      -  Voc no poderia deixar de notar madame, com seu traje branco.
      Os dois homens estavam na escada da frente do castelo, e o olhar do duque examinava o parque o tempo todo, esperando a cada momento ver Syrilla aparecer no meio das rvores.
      -  estranho - disse Pierre. - Acha que pode ter havido um acidente e que o cavalo fugiu?
      - Nunca vi uma mulher que montasse to bem. E, se ela tivesse cado, tenho certeza de que o cavalo voltaria para casa.
      -  verdade.
      Ento o duque notou que um homem atravessava os portes de ferro forjado do ptio. Olhou para ele, desinteressadamente. Depois, vendo que se dirigia para a porta da frente e no para os fundos, esperou, com a estranha sensao de que sua presena ali tinha algo a ver com Syrilla.
      Quando o homem chegou mais perto, Pierre notou que tinha uma carta na mo.
      Houve um silncio, at que o rapaz, magro e esfarrapado, chegasse ao p da escada e olhasse para os dois homens.
      - Qual dos dois  o duque de Savigne?
      - Sou eu!
      - Isto  para o senhor! Entregou a carta ao dono da casa.
      O duque leu-a, e Pierre viu seus lbios se contrarem com expresso encolerizada.
      - Onde est a duquesa? - perguntou Aristide asperamente.
      - Est conosco, em Tauxise - respondeu o rapaz.
      - O que houve? Que aconteceu? - perguntou Pierre de Bethume,  sem  poder conter  a  curiosidade.
      O duque entregou-lhe a carta de Syrilla.
      
      "Senhor,
      As pessoas que cuidam de uma de suas vinhas foram tratadas com dureza e, creio eu, injustamente, desde que as videiras foram atacadas pelo pyrale. Elas pretendiam traz-lo at aqui para que visse, por si mesmo, o quanto esto sofrendo. Em vez disto, trouxeram a mim.
      Prometi-lhes que, assim que receber esta carta, vir at aqui sozinho e por as coisas em ordem. O portador desta lhe indicar o caminho.
      Sou sua esposa afetuosa e admiradora, Syrilla"
      
      - Esto mantendo madame como refm! - disse Pierre, em voz baixa e rouca.
      O duque virou-se para ele. Os olhos de ambos se encontraram e cada qual soube o medo que o outro sentia.
      O duque estalou os dedos para o cavalario que segurava o garanho que ele havia montado, enquanto procurava por Syrilla.
      O homem adiantou-se.
      - No deve ir sozinho - disse Pierre, em voz baixa. - Talvez seja perigoso.
      - Voc leu a carta. Ela me pede para ir sozinho.
      - Talvez tenha sido obrigada a escrever. 
      -  uma possibilidade, mas no tenho alternativa, a no ser fazer o que me pede.
      - Deixe-me mandar algum acompanh-lo - pediu Pierre. - Ou, pelo amor de Deus, v armado.
      - Tenho a impresso de que Syrilla confia em que eu siga exatamente suas instrues.
      - Por favor, oua-me.
      Mas o duque j estava montado.
      - Tenho que esperar por voc, rapaz? - perguntou ao mensageiro.
      - Vim a cavalo, senhor. Est na entrada do parque.
      - Ento, v peg-lo.
      O rapaz saiu correndo e o duque disse a Pierre:
      - Mande chamar o administrador dos vinhedos.  Que venha e espere minha volta. Quero a explicao disto, e que seja boa!
      - Deixe-me acompanh-lo, senhor.
      O duque olhou-o, do alto, e respondeu:
      - Madame quer que v sozinho. Acho que ela me v no papel de Cavaleiro Branco e, neste caso, no vou precisar de ajuda para matar o drago.
      Havia uma nota divertida em sua voz, que surpreendeu Pierre. Quando o duque partiu, o amigo ficou olhando para ele, perplexo.
      
      Syrilla tinha esgotado seu repertrio de histrias e, depois de falar durante tantas horas, estava com a garganta seca.
      Mas achou que no tinha o direito de se queixar, sabendo que, passada a excitao da novidade de sua presena, as crianas estavam chorando de fome.
      Notou tambm que os homens, sentados  sua volta como que montando guarda, mastigavam pedaos de madeira, como se o fato de ter alguma coisa na boca compensasse o vazio do estmago.
      Durante todo o tempo em que falava, ela olhava para o lado da mata.
      Sabia que o duque viria por ali, e, quando finalmente viu surgirem dois cavaleiros, seu corao pulou de alegria.
      Tinha certeza de que ele no a decepcionaria!
      Por outro lado, compreendendo que todo mundo se preocupava com atos revolucionrios, temera que ele viesse acompanhado por vrios de seus criados.
      No havia dvida de que era o duque, firme em seu garanho preto, e Syrilla sentiu uma onda de amor e de adorao pelo marido.
      Quando se aproximou, todos olharam para ele.
      Cavalgara depressa e, assim que seu guia lhe mostrou onde ficava Tauxise, ele esporeou o cavalo.
      Os homens se ergueram lentamente e as mulheres e as crianas fizeram o mesmo. Assim que o duque chegou s casas, Syrilla foi ao seu encontro.
      Ele no parecia ter olhos para mais ningum. Desceu do cavalo e pegou as mos estendidas da esposa, beijando-as.
      - Voc est bem? - perguntou, aflito.
      - Voc veio! Eu sabia que viria!
      - Voc me pediu para vir sozinho.
      - Muito obrigada.  Precisam de voc aqui.
      - Que aconteceu?
      Syrilla fez um gesto em direo s videiras.
      - Veja voc mesmo.
      - Ver o qu?
      - A pyralel
      Nisto, os homens que pareciam mudos e fascinados com a presena do duque, comearam a falar.
      -  a praga - disse o mais alto. - No temos culpa de ela ter atacado nossos vinhedos. Mas, por causa disto, estamos morrendo de fome! Morrendo de fome, senhor! Olhe para nossas crianas, para nossas mulheres, olhe para ns.
      O duque olhou ao redor e perguntou:
      - Voc no receberam seu pagamento?
      Muitos falaram ao mesmo tempo, contando que h muitos meses estavam sem dinheiro, que tinham sido obrigados a sair em busca de empregos que no existiam, voltando para a aldeia porque no tinham para onde ir.
      As vozes se tornavam mais altas,  medida que apresentavam suas queixas. Mesmo assim, o duque ouviu a voz suave de Syrilla.
      - As crianas esto famintas. Consegui salvar a vida de uma delas, mas as outras vo morrer, a no ser que se faa alguma coisa, e depressa!
      O duque levantou a mo pedindo silncio e foi obedecido imediatamente.
      - Ouvi suas queixas e acho que so totalmente justas. Agora, vou dar minhas ordens aos homens de Tauxise e espero ser obedecido.
      Syrilla teve a impresso de que todos ficaram de respirao suspensa. O duque continuou:
      - Voc vo arrancar as rvores imediatamente, limpar o terreno e, como  costume nestas circunstncias, plantar batatas e mostarda. Este trabalho levar meses, mas sabem que nos prximos anos no podero plantar videiras nestas terras. - Olhou  volta, todos o escutavam atentamente. - Nos prximos dias, vou estudar se ser mais conveniente mudar esta aldeia de lugar e construir novas casas em outro ponto da propriedade, ou se ser prefervel derrubar uma parte da mata, no lado oeste, e plantar ali novas videiras. Se o solo for bom e receber bastante sol, no vejo razo para que o territrio ocupado por Tauxise no se estenda.
      Houve exclamaes contidas.
      - Preferamos isto, senhor - disse o homem alto. - Quase todos ns vivemos aqui a vida inteira.
      - Teremos, naturalmente, que estudar o problema a fundo - explicou o duque. - E gostaria de ter a opinio de vocs a respeito da convenincia, ou no, de plantarmos novas videiras.
      Houve novos murmrios de aprovao, muito diferentes dos que Syrilla tinha ouvido antes.
      Olhando para as mulheres que estavam fora do crculo, o duque falou:
      - Reconheo, assim como minha mulher, que  preciso fazer alguma coisa pelas mulheres e as crianas, imediatamente; para todos vocs,  claro. Os salrios sero pagos sem demora e vocs sero amplamente compensados pelos meses em que nada receberam. Vou voltar ao castelo e dar ordem para que lhes entreguem cabras e galinhas de minha prpria fazenda. Mandarei tambm gros e farinha, para que possam fazer po, imediatamente.
      Desta vez, as mulheres aplaudiram, de modo to espontneo e ao mesmo tempo to fraco, que Syrilla sentiu lgrimas nos olhos.
      O duque pegou sua bolsa na cinta.
      - Infelizmente, nunca carrego muitas moedas de ouro, mas isto aqui basta para vocs comprarem os artigos de primeira necessidade na aldeia vizinha, at que eu mande tudo que prometi. No vai demorar. Estar aqui hoje  tarde. - Houve novos aplausos. - Acho que agora est na hora de eu levar minha mulher para casa.
      Os homens abriram caminho e o duque e Syrilla se dirigiram para seus cavalos, mas muitas mulheres se ajoelharam para beijar a saia da moa, quando passou por elas.
      S quando j iam montar, foi que a mulher que tinha trazido a criana dada por morta saiu correndo de casa. Tinha o beb nos braos.
      - Abenoe o menino, madame. Abenoe a criana a quem a senhora deu vida. A senhora  um anjo mandado por Deus!
      A mulher ajoelhou-se no cho e levantou o beb que chorava. Syrilla hesitou por um momento e depois colocou a mo na cabea da criana, de leve.
      - O beb j foi abenoado por Deus. No fui eu que lhe deu vida, e sim, Deus, porque a vida  dada apenas por ele. Sugiro que lhe dem o nome do homem que os ajudou e que, tenho certeza, lhes trar felicidade no futuro. -- Sorriu para o duque e acrescentou, em voz suave: - O nome  Aristide!
      - Seria uma grande honra, senhor - disse o pai.
      - Ento, fico encantado por seu filho ter o meu nome.
      O duque pegou Syrilla nos braos e colocou-a na sela. Depois, montou e se virou para os aldees:
      - Quanto mais depressa voltarmos, mais depressa vocs vo receber o que lhes prometi.
      Durante algum tempo, as mulheres correram atrs de Syrilla, tocando sua saia, murmurando agradecimentos. Quando chegaram no fim da aldeia, elas ficaram para trs e a moa acenou-lhes, at ela e o duque chegarem  mata.
      Cavalgaram durante algum tempo, e ele perguntou:
      - Teve medo?
      - S a princpio. Mas, depois que salvei o beb, soube que eles no me fariam mal.
      - Conte-me o que fez.
      Contou-lhe como tinha visto o pastor de seu pai salvar a vida da ovelhinha e que o cardeal havia dito que a vida vem de Deus, mas que s vezes pode ser transmitida por outras pessoas.
      - Nunca ouvi nada to extraordinrio!
      - Eles pretendiam raptar voc e amea-lo. Mas expliquei-lhe que voc no podia estar sabendo do que se passava.
      O duque ficou em silncio durante alguns minutos e comentou finalmente:
      - Mas voc me culpa por deixar que tais coisas aconteam em minha propriedade.
      Ela no respondeu.
      - Diga a verdade, Syrilla.
      Teve a impresso de que ele quase a estava forando a censur-lo.
      - Compreendo, senhor, que se dedicou a ajudar os pobres e os infelizes de Paris, mas sua presena  necessria tambm aqui, porque este  o seu povo.
      O duque ia responder, mas depois esporeou o cavalo e havia em seu rosto uma expresso que ela no compreendeu.
      Quando chegaram ao castelo, Pierre de Bethume os esperava. Desceu correndo os degraus da frente.
      - Est bem, madame?
      - Muito bem. Meu marido tem muitas coisas que deseja que sejam feitas imediatamente. Por favor, ande depressa!  urgente! Urgente!
      Sabia que Pierre obedeceria a seu pedido e entrou em casa, deixando o duque, que dava ordens bruscas a seu procurador e aos empregados.
      Estava um pouco cansada e foi para o quarto.
      As criadas a ajudaram a tirar o traje de montaria e ps um vestido leve. Depois, ela desceu, sentindo muita fome, mas envergonhada disto, ao pensar como os aldees deviam ter sofrido por ficar tanto tempo sem comida.
      O duque a esperava no salo e entregou-lhe um copo de vinho.
      - Beba. Est precisando.
      - Estou com muita sede. - Depois, como se no pudesse deixar de perguntar, disse:
      - Mandaram tudo para a aldeia?
      - No tudo. Levar as galinhas e as cabras toma tempo, mas mandei uma grande quantidade de presunto, peixe e po de minha despensa.
      - Obrigada! Obrigada! Sabia que voc ia fazer isto! Falou com o administrador dos vinhedos?
      - Ele est  minha espera.  melhor eu deixar que sofra um pouco.  esta altura, j deve saber o que aconteceu.
      - Pretende despedi-lo?
      O duque esperou uns minutos, antes de responder:
      - Estou pensando se ele tem mais culpa do que eu, Como voc bem disse, Syrilla, a responsabilidade  minha.
      - Ele  desumano! - exclamou Syrilla. - E voc nunca poderia ser desumano com ningum!
      Achou que o duque ia dizer alguma coisa, mas neste momento anunciaram o almoo e os dois se encaminharam para a sala de jantar.
      Apesar dos protestos de Syrilla, ele insistiu para que ela repousasse depois da refeio.
      - Se no est cansada, devia estar. Passou por uma experincia desagradvel e assustadora para qualquer pessoa.
      - Quero ficar com voc.
      - Vou conversar com meu administrador e meu agente. Desconfio que no ser um encontro agradvel, e, francamente, prefiro que voc no esteja presente.
      - Vou deitar, ento. Mas por favor, no podemos ir aos vinhedos, amanh? Tenho muita vontade de v-los em sua companhia.
      - Est bem, iremos amanh.
      Viu que os olhos dela se iluminavam e achou que seria intil pensar em ir para Paris, quando havia tanta coisa para fazer na propriedade.
      Por que no podia ter sido administrada to bem como no tempo de seu pai?, pensou ele, furioso.
      Mas soube imediatamente qual a resposta e teve medo de confessar at para si mesmo.
      
      Syrilla deitou no quarto bonito que durante sculos havia sido ocupado por vrias rainhas da Frana.
      Gostava do brocado azul que forrava as paredes; do teto pintado, onde Vnus estava cercada de anjos; dos tons de rosa e azul repetidos no tapete Aubusson.
      Uma leve brisa agitava as cortinas, parecendo uma msica suave.
      Era feliz, muito mais feliz do que pensou que pudesse ser. E tudo por causa do duque, um homem maravilhoso!
      S porque ele se achava longe, em Paris,  que as coisas ali estavam to erradas. Rezou para que encontrasse tanto trabalho em Savigne, que no quisesse voltar to cedo para Paris!
      Iam sentir sua falta l, mas ele era necessrio no castelo.
      Sabia que no eram apenas os aldees de Tauxise e de outros lugares que precisavam do duque. Havia dentro dela um desejo intenso de ficar ao lado dele em Touraine.
      Syrilla tinha medo de Paris. Achava que se sentiria perdida na sociedade brilhante e sofisticada que o duque provavelmente freqentava e da qual ela nada conhecia.
      Se sua me fosse viva, Syrilla no teria tanto medo. Mas o pai nunca se preocupara com a sociedade, e certamente havia muito perigo de ela cometer erros, sem ter quem a guiasse.
      Por favor, meu Deus, fazei com que ele fique aqui, onde somos to felizes, onde tudo  to bonito e no h ningum para se meter entre ns!
      Na realidade, no sabia o que queria dizer com as ltimas palavras, mas percebia instintivamente que sua felicidade estava ameaada de um modo estranho e incompreensvel.
      No fazia idia do que podia ser. Talvez, a preocupao do duque com o trabalho ao qual se dedicara; talvez, as pessoas s quais estava associado.
      Sabia apenas que havia uma nuvem no horizonte, embora o marido no tivesse tornado a falar em deixar o castelo.
      Eu o amo! Oh, meu Deus, eu o amo com todas as fibras do meu ser. Fazei com que me ame um pouco e no pedirei mais nada!
      Rezou fervorosamente. Mas estava muito cansada e dali a pouco adormeceu.
      Acordou com a criada dizendo que era hora de seu banho e de se vestir para o jantar.
      Olhando para o relgio, Syrilla viu que tinha perdido horas preciosas dormindo, quando poderia ter estado com o duque. Ele j devia ter terminado sua conferncia com o administrador e o agente.
      - Depressa, depressa, Marie!Traga meu vestido mais bonito. Depois, vou descer. Monsieur le duc sempre se veste cedo, e quero ficar com ele.
      Apesar disto, levou tempo para tomar banho perfumado e envergar um dos vestidos mais bonitos entre os que a duquesa-me havia encomendado em Paris. Era de tule branco, enfeitado de fitas azuis e botes cor-de-rosa.
      Enquanto a criada o abotoava nas costas, Syrilla desejou que o duque a admirasse. Todas as vezes em que aparecia, ela procurava o olhar dele, para ver se ali encontrava um brilho de admirao, o que s vezes acontecia.
      Colocou um buquezinho de flores cor-de-rosa nos cabelos e depois um colarzinho de brilhantes que tinha sido presente de casamento. Dele pendia um medalho em formato de corao. Quando conhecesse melhor o duque, pediria que mandasse pintar uma miniatura, para que pudesse ter o retrato dele sempre junto do corao.
      Finalmente ficou pronta e, depois de agradacer  empregada, foi at o patamar da escadaria que levava ao grande hall de mrmore.
      Era tanta sua pressa, que pareceu voar at o salo. Um criado abriu a porta, mas ela viu, com grande decepo, que o salo estava vazio.
      Depois, percebeu que o duque estava no terrao e para l se dirigiu.
      Antes de cruzar a porta-janela, ouviu passos l fora e viu Pierre se aproximar do duque, que estava encostado num dos pilares, olhando o lago.
      - Senhor, os jornais de Paris acabam de chegar e dizem que Astrid foi libertado da priso h trs dias!
      Havia na voz de Pierre uma nota de pnico que fez com que Syrilla ficasse imvel. Ela continuou do lado de dentro e, tendo reconhecido o nome, ficou  escuta.
      - Astrid? - perguntou o duque. - Ento, j cumpriu a sentena? Era de oito anos, se bem me lembro.
      - Ele est livre, e, senhor, precisa ter cuidado! Sabe que jurou mat-lo!
      - Foi h muito tempo, Pierre. Com certeza, seu gnio melhorou, enquanto esteve na cadeia.
      - Acho muito pouco provvel. O homem  um animal, um animal feroz e perigoso! - Fez uma pausa, e Syrilla sentiu que ele estremecia, ao continuar: - Ainda posso v-lo gritando para voc no tribunal. Parecia um louco.
      - Estava louco. Mas agora est livre, Pierre, e no h o que eu possa fazer.
      - Exceto, ter cuidado.
      - O que voc sugere? 
      Syrilla teve a impresso de que havia uma nota zombeteira na voz do duque.
      - Vou dar ordem para que dobrem imediatamente a guarda do castelo  noite - disse Pierre. - Farei tambm com que haja homens e ces patrulhando o parque. Esto armados, e direi que atirem, assim que virem Astrid.
      - Acho que voc est dramatizando demais a situao, Pierre. Alm do mais, se ele me estrangulasse, talvez fosse justia potica.
      - No deve falar assim! Peo-lhe, por amor  duquesa, que no seja temerrio!
      No podendo mais escutar sem tomar parte na conversa, Syrilla passou para o terrao.
      Ao ouvir seus passos, os dois homens se viraram. Syrilla correu para o duque.
      - Ouvi o que estavam dizendo. Oh, por favor, tenha cuidado! Voc est em perigo!
      - Pierre exagera - disse o duque, calmamente. - No corro perigo, Syrilla. Esse homem passou oito anos na priso. No h de querer voltar para l e ficar mais oito!
      - Mas... ele o ameaou - disse ela, em voz baixa.
      - Os homens dizem muita coisa, quando so condenados por assassinato - declarou o duque, friamente.
      - Por que... por que ele no foi guilhotinado? Houve um breve silncio.
      - Foi um crime passional, e geralmente os juizes so mais condescendentes, por sentimentalismo.
      Syrilla ia dizer qualquer coisa, mas o marido continuou:
      - No quero falar mais nisto. Voc no saberia de nada, se Pierre no tivesse vindo cacarejar como uma galinha velha. Esquea isto, Syrilla. Savigne  o lugar mais seguro do mundo e podemos nos entregar nas mos de Pierre, com toda a confiana.
      Olhou para o procurador, com ar significativo, e Pierre percebeu que devia se retirar.
      - Peo perdo por ter tocado no assunto. Vejo que me preocupei exageradamente. - Enclinou-se e saiu.
      Syrilla olhou para o duque.
      - Por favor, tenha muito cuidado! Se alguma coisa lhe acontecesse, todo o meu mundo viria abaixo... e eu ia querer... morrer!
      
      
      
      
      
      
      
      
CAPTULO VI
      
      
      Quando foram para o salo, terminado o jantar, Syrilla pediu:
      - Por favor, conte-me o que fez. O duque sabia a que ela se referia.
      - Despedi o administrador e o agente. Ambos sabiam o que estava acontecendo em Tauxise.
      - Estou contente com isto. No posso pensar no que aquela pobre gente sofreu, e deve haver outros na mesma situao.
      - Vou cuidar para que nunca mais acontea. O administrador veio para c, de Bordeaux, com boas recomendaes, mas acho que, de hoje em diante, devo confiar meus vinhedos a um homem daqui mesmo, que conhea Touraine e suas necessidades particulares.
      - Papai sempre dizia que as pessoas que conhecem nossas dificuldades locais so melhores do que as que vm de outras partes da Frana.
      - Seu pai tem razo. Espero que, no futuro, voc no precise se preocupar com o que acontecer na propriedade.
      Houve silncio, e ele percebeu que alguma coisa a preocupava.
      - Que h?
      Syrilla hesitou. Disse baixinho:
      - Eu no gostaria de... dar trabalho.
      - Acho que tem alguma coisa para me dizer e quero que seja franca comigo. - Ela ainda hesitava, e o duque insistiu:
      - Afinal, voc  minha mulher, e qualquer coisa que acontea aqui em nossa casa ou na propriedade e que me diz respeito  tambm, em parte, responsabilidade sua. Agora, conte o que a est aborrecendo.
      - Sei que no devia... ouvir os mexericos dos empregados, mas eles sempre  falam... inclusive  Marie, a minha empregada, quando me ajuda a vestir.
      - Compreendo bem. Gustave, meu criado particular, muitas vezes me prega um sermo.
      - O irmo de Marie trabalha nas cocheiras - disse Syrilla. - Quando voc no est aqui, os cavalos muitas vezes no so exercitados e so at... negligenciados.
      - Que quer dizer com negligenciados?
      - O chefe dos cavalarios  muito velho e, no inverno, sofre de reumatismo. Por isto, deixa tudo a cargo do segundo encarregado, que  preguioso. s vezes, os cavalos so mal alimentados e at ficam sem gua.
      Syrilla no olhou para o duque. Estava constrangida por lhe contar aquilo, pois achava que tudo que dizia respeito a ele devia estar em perfeita ordem.
      - Maldio! Por que no fazem o servio direito? Parecia to zangado, que tentou amenizar as coisas:
      - Mame muitas vezes dizia que os criados so como atores, precisam de aplausos, ou, em outras palavras, de elogios. Do contrrio, acham que, no tendo um pblico que os aprecie, no vale a pena representar bem!
      O duque foi at a lareira e ficou de costas para ela.
      - O que est novamente querendo dizer  que as cocheiras, assim como os vinhedos, precisam de minha superviso.
      - No queria incomod-lo, contando-lhe essas coisas, mas, naturalmente,  esta a verdade. Se os jardins esto bonitos e ningum reconhece isto, por que os jardineiros se daro a tanto trabalho? - Fez uma pausa e continuou, hesitante: - Se seus cavalos esto em boa forma, mas no h ningum para mont-los... quem  que vai ligar?
      No podia ver o rosto dele, mas sabia que estava srio.
      - Por favor... no fique zangado... mas voc disse que queria que eu fosse franca.
      -- Quero que sempre me conte o que achar que  verdade. Acho que  o que sempre faz, Syrilla.
      - Claro. Eu no mentiria a ningum, muito menos, a voc.
      - Voc  diferente da maioria das mulheres que conheo - disse o duque, com ar cnico.
      - Isto no  um elogio. Compreendo agora que sou... inadequada e... montona, comparada com as mulheres bonitas e inteligentes que conhece em Paris.
      Havia em sua voz uma tristeza um tanto pattica. O duque ia dizer que estava enganada, mas mudou de idia.
      - Teve um dia longo, Syrilla, e deve estar cansada. Sugiro que v deitar. Falaremos sobre isto amanh.
      - Prefiro ficar e conversar.
      - Digamos que tenho muito em que pensar. O que aconteceu hoje me fez refletir, e talvez eu tome um rumo completamente diferente na vida.
      Syrilla no compreendeu, mas era muito sensvel para insistir, quando via que o duque queria ficar s. Levantou e se aproximou dele:
      - Gostaria de lhe dizer como fiquei orgulhosa, quando o vi entrar na aldeia hoje de manh. Eu disse aos aldees que voc ia solucionar todos os problemas, mas sei que no acreditavam em mim. - Fez uma pausa, olhou para ele com ar de admirao e continuou: - Mas voc foi! Parecia ter uma luz  sua volta, e eu soube que ia tornar aquela gente feliz, novamente.
      - Eu disse a Pierre que voc queria que eu matasse o drago - respondeu o duque, com um trejeito na boca.
      - Foi o que fez. Mas creio que h outros drages que exigem sua ateno.
      Fitou-o bem nos olhos, parecendo que nenhum dos dois podia deixar de olhar para o outro. Alguma coisa que Syrilla no compreendeu passou entre eles. Seu corao bateu descompassado e seus lbios se entreabriram, como se ela no pudesse respirar.
      Por um momento, foi como se nada mais existisse, exceto o duque, e estivessem sozinhos, num lugar alto e ensolarado.
      Depois, ele disse, secamente:
      - V dormir, Syrilla, e deixe-me a ss com meus pensamentos. 
      Pegou a mo dela e beijou-a. Syrilla fez uma reverncia e, ao sair da sala, tinha conscincia apenas da sensao dos lbios dele em sua pele.
      Marie ajudou a patroa a despir-se, apagou as velas e ia sair, quando Syrilla disse:
      - Abra as cortinas da janela do meio. Ainda no escureceu e quero ver as estrelas aparecerem no cu. Alm do mais, est quente.
      - Pois no, madame, mas espero que a luz no a acorde cedo demais.
      - Quero acordar cedo.  H muito o que fazer. 
      Sabia que o que desejava era ficar perto do duque. Depois que se viu s, Syrilla olhou para o cu que escurecia e onde as primeiras estrelas pareciam pequenos diamantes. Logo se refletiriam no lago, e ela ficou pensando se haveria no mundo um lugar to belo como o Castelo Savigne.
      - Ou um homem to maravilhoso como seu dono! - murmurou. Pensou na estranha sensao que teve quando os olhos de ambos se encontraram, ao dizerem boa-noite.
      Pensou na nuvem luminosa que parecia envolv-lo quando ele entrou na aldeia. Por um momento, chegou a v-lo com a armadura que usara no torneio.
      Ela o amava desde aquele primeiro dia, h nove anos, mas agora; compreendia que tinha sido um amor de criana; uma adorao por um ser mstico, uma criatura endeusada, que no era de carne e osso. Encarou o fato de que, nos ltimos dias, seu amor por ele havia mudado.
      No dia do casamento, pensou que continuaria adorando-o como a encarnao de tudo que era nobre e bom, mas, de certo modo, imperceptivelmente, seu amor mudou. Agora, quando o via, seu corao batia de um modo diferente. Quando o duque lhe beijou a mo, soube que ansiava para que ele lhe beijasse os lbios.
      Eu o amo! Eu o amo! E acho que, agora, o amor que sinto  o amor de uma mulher.
      Vibrou com a sensao que nunca havia experimentado, e, como eram perturbadoras e um tanto assustadoras, ela levantou e foi se ajoelhar no genuflexrio. Juntou as mos, como fazia em criana, abaixou a cabea e fez as oraes que tinha aprendido no colo da me.
      Rezou a Ave Maria e depois pediu ardentemente a Deus que fizesse com que o duque a amasse, precisasse dela e a quisesse.
      - Fazei,  Deus, com que ele esquea o antigo amor. Fazei com que pense em mim. Fazei com que me ame um pouquinho, s um pouquinho, como um homem ama uma mulher.
      Teve a impresso de que era errado pedir tanto, mas todo seu ser ansiava pelo marido, de um modo diferente de qualquer outra emoo que conhecia. O corpo ansiava por ele, os lbios desejavam os dele, e achava que estar em seus braos seria o cu.
      - Eu o amo! Oh, meu Deus, eu o amo! Pode o amor ser errado, quando vem de Vs e de Vs faz parte? Amo-o tanto, que ele enche todo o meu mundo e nada mais existe.
      Syrilla no soube quanto tempo ficou rezando, mas seus sentimentos eram to intensos que achou que Deus a ouviria.
      Ao fazer o sinal da cruz, ouviu um barulho na janela. Achou que talvez fosse um pssaro ou um morcego, querendo entrar no quarto.
      Virou-se, ainda ajoelhada no genuflexrio, e viu uma coisa to estranha, que a princpio no soube o que era.
      Havia uma sombra na janela. Enquanto Syrilla olhava, imaginando o que seria, a sombra foi descendo, at que ao chegar ao peitoril, obscureceu quase totalmente o cu.
      Perplexa, mas ainda sem sentir medo, Syrilla levantou lentamente. Ento, a sombra desceu mais ainda, e ela percebeu que se tratava de um homem.
      Subitamente, compreendeu quem era e o perigo que representava!
      No havia necessidade de perguntar quem entraria no castelo daquele jeito ou quem a sombra procurava e por qu!
      Com um grito de terror do fundo do corao, ela correu para o homem.
      
      O duque ficou no salo durante muito tempo, at que, no tendo chegado a uma concluso, subiu para o quarto.
      O criado o esperava e, percebendo que o patro no estava disposto a conversar, ajudou-o a despir-se, em silncio. S na hora de sair, foi que disse:
      - Bon soir, monsieur le duc.
      Aristide no se deu ao trabalho de responder.
      Deixou a luz acesa e deitou. Sabia que no conseguiria pegar no sono. Queria refletir sobre seus planos futuros, mas via-se atormentado, embora contra a vontade, pela lembrana de Astrid.
      A cena do tribunal lhe voltara  memria vividamente, como se tivesse acontecido na vspera, e no, nove anos antes.
      O duque podia ouvir a voz do assassino, gritando obscenidades, amaldioando-o com todos os palavres usados no submundo de Paris e jurando que, cedo ou tarde, o mataria com as prprias mos.
      - Voc vai morrer, meu belo duque! - gritou, enquanto os guardas o arrastavam para as celas. - Vai morrer como Zivana morreu, com o rosto roxo e sem poder respirar! Vai morrer, e sua alma apodrecer no inferno!
      Foi o clmax de um julgamento horrvel e humilhante, que fez com que o duque mudasse completamente de carter e de personalidade.
      Esperou poder esquecer,  mas seus esforos  para  isto o mergulharam, cada vez   mais, nas profundezas da depravao que um homem normal no poderia nem mesmo encarar.
      Mas no conseguiu apagar da mente a lembrana do que fico sabendo no julgamento.
      Lembrou-se da primeira vez que vira Jules Astrid, representand no Thtre des Variets, onde Zivana trabalhava como bailarina. Na ocasio, achou Astrid um belo  homem e, mais tarde, soube que tinha representado muitos papis em sua vida. Devido ao desejo de ser ator, Astrid havia sido assistente de domador de lees num circo e tambm acrobata.
      Por ser um homem bonito, deram-lhe um papel pequeno numa companhia que percorria as provncias. Tendo sempre desejado ser ator, ele deixou o circo para fazer tournes pela Frana.
      Com o tempo, representou todos os papis masculinos do repertrio da companhia, at chegar a ser o ator principal.
      Um descobridor de talentos de Paris notou-o e fez com que lhe dessem o papel principal numa pea, junto com uma atriz que tinha sido famosa, mas estava velha demais para manter o interesse do pblico durante todo o espetculo. Apesar da idade, a mulher se apaixonou por seu.gal e comearam um caso.
      O duque no sabia que Zivana e Astrid se conheciam. S durante o julgamento percebeu o segredo que os dois escondiam dele e tambm da atriz idosa, que era terrivelmente ciumenta.
      Agora, no quarto do castelo, o duque teve a impresso de estar vendo uma pea sendo representada. Primeiro, Jules Astrid no principal papel masculino, chamando a ateno de todas as mulheres do pblico, depois, no tribunal, ao ouvir a sentena, com o rosto contorcido pelo dio, gritando e rugindo como um animal selvagem.
      No vou pensar nele, no vou!, disse a si mesmo.
      Inmeras vezes havia tentado afastar estas lembranas, entregando-se  bebida e as farras com mulheres, a orgias em sua casa de Paris, a excessos que tinham feito com que at seus amigos ntimos se afastassem, enojados.
      Agora, quando achava que quase tinha esquecido a existncia de Astrid, o homem voltava para atorment-lo.
      Na realidade, o duque no tinha medo do que o assassino lhe pudesse fazer fisicamente. No acreditava que, numa competio de fora, ele no sasse vencedor.
      Havia,  verdade, o perigo de Astrid atirar nele no meio de uma multido. Mas no havia defesa contra esse tipo de ataque, a no ser que ele ficasse como que numa priso, guardado dia e noite.
      Se ele me matar, que importncia ter?, pensou. Depois, surpreendentemente, viu que no desejava morrer.
      Aps o julgamento e o trauma que lhe causou, o duque desejou, se no pr fim  vida, pelo menos mud-la completamente. Se tivesse morrido, no ligaria. Mas agora, estranhamente, queria viver. A vida nunca lhe parecera to preciosa.
      Na escurido do quarto, ficou imaginando se a vida que tinha levado lhe trouxera alguma felicidade. Alguma coisa em seu ntimo no teria sentido repulsa da depravao a que se entregara?
      A amargura e o cinismo que tinham tomado conta de sua mente, a ponto de ele, s vezes, pensar que estava meio louco, teriam trazido alguma coisa mais do que uma sensao de humilhao?
      A idia de Astrid ter sido libertado fazia reviver a revolta que Sentiu depois do julgamento? Mas era difcil comparar seus sentimentos naquela poca com os de agora.
      Estou mais velho, no tenho mais ideais a serem destrudos, nem padres a serem rebaixados, pensou, encolerizado. Mas queria viver!
      Ocorreu-lhe, de repente, a idia de que desperdiara os ltimos nove anos, quando havia tanta coisa que podia ter feito com seu tempo e seu dinheiro.
      Este pensamento fez com que levantasse da cama e fosse abrir as cortinas, para olhar a noite.
      De repente, percebeu que, desde menino, nunca mais tinha olhado realmente para o lago e os jardins,  luz das estrelas. Tudo lhe pareceu to belo, to misterioso, que todo seu ser desejou fazer parte daquilo.
      Ao mesmo tempo sentiu imenso orgulho por tanta beleza ser seu reino, a sua propriedade.
      Viu as estrelas refletidas no lago, com um brilho prateado, com as rvores altas contra o cu. Havia uma fragrncia de flores no ar e ele julgou distinguir o perfume de uma das flores preferidas de sua me.
      Quando foi visitar a duquesa-me, naquela tarde, percebeu, embora ela nada dissesse, que estava encantada por ele continuar no castelo, em vez de voltar para Paris, como pretendia.
      Pela primeira vez, desde os tempos de menino, no houve necessidade de palavras entre eles cada um sabia o que o outro pensava.
      - Voc me fez muito feliz, meu filho - disse ela, docemente. O mdico tinha dito a Aristide que no devia cansar a me, nem ficar muito tempo no quarto dela.
      - A senhora duquesa est melhor, como no a vejo h muito tempo, mas seria um erro fadig-la demais - avisou o mdico.
      - Venho v-la de novo amanh, mame - disse o duque, vendo, pelo brilho do olhar dela, que era isto que queria ouvir.
      - Que Deus o abenoe, meu querido.
      Embora dissesse a si mesmo que era absurdo, Aristide teve a impresso de que realmente tinha sido abenoado.
      De repente, ocorreu-lhe a idia de que, se algum podia impedir de ele ser atormentado por Astrid, eram sua me e Syrilla. As preces de ambas formariam uma barreira entre ele e os demnios e fantasmas que h tanto tempo o perseguiam.
      Depois, refletiu que nem mesmo as oraes poderiam livr-lo de um perigo fsico.
      Ento, inesperadamente, teve a aguda sensao de que o perigo estava muito perto.
      No podia explicar, mas havia uma espcie de vibrao, no apenas em sua mente, como tambm nas pontas dos dedos e na nuca.
      Estava em perigo, um perigo que se aproximava, um perigo que o ameaava fisicamente.
      A sensao era to intensa, que o duque saiu da janela e foi abrir a gaveta de uma cmoda perto da cama. Era um bela pea de pau-rosa entalhado, com incrustaes de marfim. Dentro da gaveta, havia uma pistola carregada.
      O duque tinha zombado de si mesmo ao fazer isto, mas, quando veio dormir, carregou a arma, depois que Pierre de Bethume lhe disse que Astrid estava em liberdade.
      Mas, como poderia um homem, por mais fantico que fosse o seu desejo de matar, passar pelos guardas e por todas as outras precaues que ele e o procurador tinham tomado?
      O duque tinha ouvido os passos dos guardas-noturnos, fazendo sua ronda. Sabia que os guardas-florestais tambm tinham recebido ordem de patrulhar o parque, os jardins e a mata.
      - Quanta histeria - disse, baixinho. - Pierre parece uma velha assustada, e sou um tolo em lhe dar ouvidos.
      Mas, por mais que zombasse, a sensao de perigo ainda existia. E cada vez mais perto. O duque no pde evitar abrir a porta de comunicao com o corredor que dava para o quarto de Syrilla, Precisava pensar na segurana dela, mesmo que no pensasse na dele, disse a si mesmo, como que se desculpando por seu medo.
      Mas no ouviu nada e achou que estava sendo tolo e que, quando mais cedo voltasse para a cama, melhor. Se ficasse assim todas as noites, acabaria enlouquecendo!
      Voltou para o quarto, e ia fechar a porta de comunicao, quando ouviu o grito de Syrilla.
      O duque levou apenas alguns segundos para atravessar o corredor e chegar ao quarto dela. Abriu a porta e ouviu a moa dizer, desesperada:
      - Voc no vai machucar Aristide! No vai mat-lo!
      Viu, no escuro, a mancha branca da camisola de Syrilla e percebeu que ela lutava com um homem grande. Soube instintivamente, com um terror que o feriu como uma facada, que as mos de Astrid seguravam o pescoo de Syrilla.
      - Morra! Morra como Zivana morreu! - gritou o assassino, com uma voz que parecia o rugido de um animal selvagem.
      Com a pontaria de um atirador exmio, alvejou a testa do homem, Astrid caiu para trs e o duque pegou Syrilla, que tinha desmaiado a seus ps.
      No podia ver claramente, mas carregou-a nos braos at seu quarto, sem nem mesmo olhar para o homem que tinha acabado de matar.
      Deitou-a em sua cama e, quando a cabea de Syrilla caiu inerte sobre o travesseiro, ele se perguntou, com uma dor no corao, se estaria morta.
      No pescoo de Syrilla as marcas dos dedos de Astrid. Ficou aterrorizado ao ver que as plpebras estavam ficando escuras, como aconteceria se tivesse sido estrangulada.
      O duque puxou o cordo da campainha, desesperadamente, ajoeIhando-se depois e colocando o ouvido sobre o corao de Syrilla.
      Ainda batia.
      Cobriu-a com a colcha de veludo e ficou ajoelhado, fitando-a por um longo momento. Depois, levantou e abriu a porta do corredor, pretendendo gritar por socorro.
      Neste momento, viu seu criado de quarto, que chegava correndo, abotoando o palet.
      - Mande chamar o mdico, imediatamente! E diga ao senhor Bethume que venha c o mais depressa possvel.
      O criado saiu correndo, mas, antes que chegasse no meio do corredor, Pierre de Bethume apareceu.
      - Que aconteceu? Pensei ter ouvido um tiro.
      - E ouviu! - respondeu o duque, bruscamente. - Matei Astrid. Ele estava no quarto de Syrilla.
      - Como conseguiu?
      - Creio que desceu pelo telhado, por uma corda. Devamos ter lembrado de que era acrobata!
      - Meu Deus!
      O duque disse qualquer coisa, voltando para o quarto.
      - E a duquesa? - perguntou Pierre.
      - Ele estava tentando estrangul-la.
      - Tentando?
      Pierre apenas murmurou a palavra, pois  luz da vela, o rosto de Syrilla estava mortalmente plido e os cabelos pareciam cerc-lo como uma aurola.
      Assim como o duque havia feito, Pierre ajoelhou-se e pegou a mo dela, procurando sentir-lhe o pulso.
      - Est viva!
      Mas tambm viu as marcas dos dedos do assassino no pescoo branco e, quando olhou para o duque, percebeu que ele estava com medo de que o crebro tivesse sido afetado.
      Aristide pegou o castial e foi espiar mais de perto o rosto de Syrilla.
      No primeiro momento de pnico, tinha achado que as plpebras estavam ficando escuras, mas agora percebeu que era por causa das sombras. Suspirou de alvio, colocou o castial numa mesinha e disse:
      - V verificar se j mandaram chamar o mdico e se o maldito Astrid est morto. Creio que o atingi na testa.
      Pierre de Bethume nada disse. Levantou, passou pelo corredor de comunicao e foi para o quarto de Syrilla.
      O duque ajoelhou-se de novo ao lado da cama e, dali a momentos, viu as plpebras da moa estremecerem.
      - Syrilla! - Sua voz soou rouca e baixa.
      Por um momento, pareceu que ela no podia focalizar a vista, enquanto ele esperava, ansioso. Mas de repente, ela sorriu. Tentou falar, mas no conseguiu. Sua mo subiu com dificuldade ao pescoo.
      - No fale. Aquele miservel machucou seu pescoo, mas, se voc entender o que vou dizer, basta inclinar a cabea. Est com dor?
      Ela sacudiu a cabea quase imperceptivelmente e o duque compreendeu que seu receio de que tivesse havido dano ao crebro era infundado. Pegou a mo de Syrilla e beijou-a.
      - Fique quietinha. Mandei chamar o mdico. Ele chegar aqui o mais depressa possvel. No tente se mover. Foi um grande choque, mas j passou.
      Viu que Syrilla tentava falar e soube o que queria perguntar.
      - Estou bem e a salvo - disse ternamente. - Voc me salvou. Ouvi seu grito e, quando entrei no quarto, vi que estava tentando me proteger. Atirei nele.
      Percebeu que ela compreendia. Observando as marcas no pescoo, achou que estavam muito escuras. No era possvel que Syrilla no sentisse dores.
      - Se ao menos eu soubesse o que fazer! - disse ele. - Mas tenho medo de que sofra mais, se eu lhe der alguma coisa para beber.
      Ela apertou sua mo e o duque percebeu que s queria que ficasse a seu lado.
      - Voc est segura. Segura para sempre!  
      Beijou as mos da esposa, uma e muitas vezes, com um alvio que ele achou que s podia ser expresso por uma manifestao de carinho.
      
      Quando Syrilla acordou, o sol entrava no quarto pelas cortinas entreabertas. Os acontecimentos da noite anterior lhe vieram  memria e ela se lembrou vagamente de ter visto o mdico, que lhe deu alguma coisa para beber. Era desagradvel, mas fez com que adormecesse profundamente.
      Percebeu que no estava em seu quarto e, sim, no do marido. Viu as sanefas douradas em cima das trs janelas e a moblia pesada, diferente das peas delicadas de seu quarto.
      Pouco a pouco, os acontecimentos da vspera foram ficando mais ntidos em sua memria. Lembrou-se de que tentara evitar que Astrid atacasse o duque e de sentir seus dedos apertando-lhe a garganta.
      Tinha sido loucura lutar com um homem grande e forte, mas estava obcecada pela idia de salvar o homem amado e nem por um momento pensou na prpria segurana.
      S quando achou que estava morrendo e que o ar lhe faltava foi que, com um esforo supremo, deu um grito desesperado, para que o duque viesse salv-la.
      E ele a salvara! 
      Vagamente, quando perdia a conscincia, tinha ouvido um tiro, e seu corao soube quem o havia disparado.
      Depois, viu-o ajoelhado a seu lado, o rosto perto do dela, beijando-lhe as mos... Sim, disto, ela se lembrava!
      Embora estivesse fraca e semi-inconsciente, os lbios dele tiveram o poder de faz-la vibrar. Os ferimentos e a dor no tinham importncia, porque o duque estava a salvo.
      Agora, desejava apenas no ficar desfigurada, pois queria parecer bonita para ele. Com esforo, porque ainda estava atordoada, devido ao calmante dado pelo mdico, levou a mo ao pescoo.
      Estava dolorido e doa quando engolia. No tanto,  verdade, como na  vspera,  quando o mdico a  fez tomar uma poo muito desagradvel.
      Percebeu que algum se achava a seu lado.
      - Ainda bem que acordou, madame - disse Marie. - O mdico mandou que lhe desse alguma coisa para beber, para aliviar a dor na garganta.
      No esperou pela resposta de Syrilla. Colocou os braos em volta dos ombros da patroa e ergueu-a um pouco para que pudesse beber o que estava no copo.
      Fosse o que fosse, no era to desagradvel como o que tomara na vspera.
      Syrilla teve a impresso de reconhecer mel e glicerina e lembrou-se de que sua me lhe dava isto, quando tinha dor de garganta, em criana.
      Marie fez com que deitasse de novo, tendo bastante cuidado, e perguntou:
      - Deseja mais alguma coisa, madame? No precisa falar, basta apontar.
      Syrilla apontou para as cortinas e Marie abriu-as. O sol penetrou no quarto. Syrilla olhou  volta. Era o quarto do duque! Notou que era o ambiente apropriado para ele e que estava na cama do marido!
      Ficou emocionada,mas depois pensou que era apenas por ele saber que no teria gostado de dormir no quarto onde tinha sido atacada.;
      Estava contente com a morte de Astrid. Agora o duque no corria mais perigo.
      Parecia estranho, pensou, que Astrid quisesse estrangul-la e que ela poderia ter tido a mesma morte de Zivana.
      O primeiro crime havia partido o corao do duque e feito com que dedicasse sua vida  mulher que amara e continuava a amar. Ele no teria sentido tanto a morte de Syrilla.
      Astrid estava morto, pensou, mas Zivana ainda vivia. Vivia na mente do duque.
      O amor dele estava encerrado com Zivana naquele precioso santurio, onde s ele entrava.
      Pela primeira vez na vida, Syrilla sentiu a dor do cime. Um cime que a feria como uma punhalada e era mais doloroso do que as marcas em seu pescoo.
      Queria o amor do duque. Queria que ele pensasse nela como mulher desejvel, que o atrasse como Zivana o atrara.
      Tinha imaginado que se contentaria com amizade, companheirismo, com o privilgio de ador-lo. Mas no era suficiente. Nem por sombra.
      A emoo que sentiu, quando correu para defend-lo do assassino, era a reao apaixonada de uma mulher que o amava como homem e como marido.
      Eu o quero! Quero-o aqui a meu lado. Quero ser sua mulher. Quero que me beije e me toque.
      Depois, como se um anjo barrasse o caminho com uma espada chamejante, soube que o que havia e sempre haveria entre eles era o amor de uma mulher morta; uma mulher cujas relquias estavam trancadas no castelo e tambm no corao do duque.
      Neste momento, Syrilla teve a impresso de estar num inferno de onde no poderia sair.
      Na noite anterior, soube que amava o duque de uma maneira muito diferente de antes. Agora, parecia que todo seu corpo ansiava por ele; que todo o seu ser buscava, desejando-o, amando-o to intensamente, que achou impossvel continuar vendo-o, sem lhe confessar esses sentimentos.
      Afinal, talvez fosse melhor fazer o que a duquesa-me queria, dar a ele um filho que perpetuasse a famlia e o ttulo.
      Mas, mesmo quando pensava assim, todo seu ser se rebelava  idia de ele toc-la, quando desejava tocar outra mulher; de saber que os beijos dele nada significariam, j que ele apenas desejava Zivana!
      Zivana! Zivana!
      O nome a atormentava; parecia estar no ar, trazido pelo vento.
      Ento ouviu Marie dizer a algum que estava  porta:
      - Acho que madame est com um pouco de febre, senhor. Syrilla imobilizou-se e sentiu que o corao tambm parava de bater. Abriu os olhos, e eles brilharam, quando viram o homem que se aproximava da cama.
      - Voc acordou! - disse o duque.
      Syrilla estendeu-lhe as mos e conseguiu dizer, em voz rouca, muito diferente da habitual:
      - Estou... bem.
      - Voc consegue falar! Oh, Syrilla, voc consegue falar! - Havia no rosto dele uma expresso encantada.
      Agarrou-se ao marido como se fosse um salva-vida que a mantivesse segura.
      - Estou... bem - murmurou. - E voc... est... salvo.
      - Sem a menor dvida. Agora, s o que importa  que fique logo boa.
      - Sinto-me bem... agora que voc... est comigo. 
      Seu corao se regozijou com o carinho nos olhos dele.
      
      
CAPTULO VII
      
      
      - Por favor, senhor, deixe-me levantar. Estou me sentindo muito bem - disse Syrilla.
      O mdico fitou-a, com um sorriso.
      - Sua sogra, a duquesa-me, me convenceu, contra a minha vontade, a permitir que viaje para Aix-les-Bains. E agora, voc est querendo me forar a correr certos riscos a seu respeito!
      - A duquesa vai viajar? - perguntou, surpresa. O mdico inclinou a cabea.
      - H muito tempo que ela no se sente to bem. Acho que  to psicolgico como fsico, porque est muito feliz com o casamento do filho.
      Syrilla no respondeu, e ele continuou:
      - Madame tem muita vontade de ir se tratar em Aix-les-Bains e acho que quer deixar o casalzinho a ss. Deve partir amanh. Se viajar por etapas, provavelmente isto no lhe far mal.
      - Estou contente - disse Syrilla.
      Esperou, olhando para o mdico, que acabou concordando:
      - Muito bem, madame, acho que vou fazer o que me pede. Pode levantar e descer para o jantar, mas depois deve voltar para a cama e ficar deitada at eu vir v-la amanh. Est de acordo?
      - Sim... estou.
      A voz de Syrilla estava ligeiramente trmula e havia em seus olhos um brilho que no passou despercebido ao mdico.
      - A senhora passou por uma experincia desagradvel, mas ainda  muito moa e tem muita coragem. Acho que no vai haver nenhuma conseqncia perigosa.
      Depois que ele saiu, Syrilla sentou na cama e ficou pensando no vestido que usaria para jantar com o duque.
      Durante dois dias, ele e o mdico tinham insistido para que ela ficasse de cama. Realmente, no primeiro dia, aps o que sofreu nas mos de Astrid, ela se sentia atordoada e a garganta doa de um modo quase insuportvel.
      Mas agora no doa e, embora as marcas tivessem ficado azuis, menos pretas, sentia-se bem. Apenas frustrada devido s restries, quando desejava tanto ficar em companhia do marido.
      No ntimo, tinha medo de que, vendo-se sozinho, ele ficasse entediado e voltasse para Paris.
      Tinha a impresso, embora o duque nada tivesse dito, de que ele queria voltar para a capital. Sabendo o que havia acontecido quando ele ficou ausente durante tantos anos,   ela estava preocupada e apreensiva.
      Por isto, ansiava para descer e ir fazer-lhe companhia.
      Era difcil controlar seus sentimentos, quando ele vinha v-la, beijando-lhe a mo e perguntando por sua sade. Syrilla achava que o duque ficava ali to pouco tempo!
      Era difcil tambm no confessar seu amor, no dizer que desejava que a tomasse nos braos.
      Como ele pde carreg-la at o quarto, depois da agresso de Astrid, sem que ela se apercebesse?
      Sempre que olhava ao redor, a imagem do duque surgia to vivamente, que era como se ele estivesse a seu lado e pudesse toc-lo.
      Marie entrou no quarto e interrompeu seus pensamentos:
      - O doutor disse que a senhora pode levantar e jantar l embaixo. So boas notcias, muito boas mesmo. Mas acho que, quando falar com o senhor duque, ele vai insistir para que o jantar seja cedo.
      - Quero que seja cedo - disse Syrilla.
      No que lhe dizia respeito, quanto mais cedo, melhor, pois estaria logo na companhia do marido.
      Poderia olhar para ele, ouvi-lo e, talvez, apesar das recomendaes do mdico, sentar um pouco no salo, depois do jantar.
      - Que vestido vai usar madame? - perguntou Marie. Isto, naturalmente, era um assunto absorvente, que ocupou muito do tempo das duas.
      Syrilla descartava um vestido atrs do outro. Finalmente, depois de ter tomado um banho perfumado e j estar vestida, ficou pensando se um dos outros trajes no teria sido melhor escolha.
      Mas, na realidade, nenhum poderia ter-lhe assentado melhor.
      Era de tule rosa, feito com arte parisiense, de saia rodada e corpete justo, revelando a curva dos seios. Tinha uma espcie de xale de renda bordado de estrelas que cintilavam como brilhantes, e havia tambm uma fivela de estrelas em cada um dos sapatos de cetim.
      - Est deslumbrante, senhora!  o vestido mais lindo que j vi!
      Syrilla sorriu, mas ficou imaginando se o duque seria da mesma opinio.
      Tendo morado em Paris, provavelmente vira muitas mulheres usando roupas maravilhosas. No podia significar para ele o que significavam para Syrilla e para Marie, que nunca haviam sado de Touraine.
      O pescoo era o problema. As marcas continuavam muito visveis. Tambm fariam com que se lembrasse do que ela havia sofrido, e ele insistiria para que voltasse logo para a cama.
      No estojo de Syrilla havia colares de prolas e de brilhantes, sendo que alguns eram presentes de casamento e outros, jias da famlia Savigne. Mas todos muito pesados. Talvez atrassem a ateno para o que procurava ocultar.
      Ento, ela e Marie prenderam uma faixa de tule em volta do pescoo, amarrando-a no lado onde as marcas eram mais pronunciadas. Como toque final, prenderam duas orqudeas brancas que estavam num vaso, no quarto.
      As flores lhe deram um ar jovem e fresco e ela no usou nenhuma jia, alm da aliana de casamento.
      Syrilla olhou-se pela ltima vez no espelho e dirigiu-se para a porta.
      - Talvez hoje, madame prefira dormir em seu quarto - sugeriu Marie.
      Syrilla hesitou por um momento.
      - Sim... acho melhor. Com certeza, meu marido deseja voltar para sua cama.
      Por um instante, ficou pensando se o fantasma de Astrid iria atorment-la e se reviveria o momento em que viu a sombra na janela, sem saber o que era.
      Depois, disse a si mesma que era estupidez ter medo. Alm do mais, o duque estaria no quarto pegado e, se ela o chamasse certamente ele a ouviria.
      Estremeceu ao pensar nisto, depois achou que nunca o chamaria, a no ser que fosse por algum motivo urgente. Se ele viesse apenas por cortesia ou considerao, seria para ela pior do que enfrentar o medo sozinha.
      Desceu a escada lentamente. O marido a esperava no salo.
      Quando se aproximou dele, viu que os olhos do duque brilharam de admirao, aquilo que ela esperava e desejava ver. Seu corao bateu acelerado e ela sentiu uma agradvel excitao pelo fato de estarem a ss.
      - No vai ficar cansada? - perguntou ele, em voz baixa.
      - No, claro que no! Eu queria levantar ontem, mas o mdico no deixou.
      - Ele foi cauteloso, devido s minhas recomendaes. Voc precisa levar tudo na calma, durante alguns dias.
      - Sim, naturalmente.
      Tinha a impresso de que os lbios de ambos diziam uma coisa, mas que os pensamehtos eram bem diferentes.
      Syrilla no podia explicar isto, mas parecia vibrar com alguma coisa que o duque sentia, algo que ela no compreendia, mas que era maravilhoso.
      Ele deu-lhe o brao e levou-a para a sala de jantar.
      Enquanto os criados serviam o jantar, trazendo pratos deliciosos e que eram demais para Syrilla, o duque falou sobre a propriedade, sobre seus planos para os vinhedos e sobre a visita que tinha feito naquela tarde a Tauxise.
      - Eles esto felizes? - perguntou Syrilla.
      - Graas a voc, nunca vi pessoas mais felizes. Os homens esto trabalhando duro, arrancando as videiras velhas. As mulheres, lavando e costurando; as crianas estavam to limpas que pareciam brilhar como panelas de cobre.
      Syrilla riu.
      - Garanto que no gostaram disto.
      - Prometi que, quando voc estivesse completamente boa, iria fazer-lhes uma visita. Falam de voc como se fosse uma santa que tivesse descido do cu para ajud-los.
      - No deviam... Fiquei encabulada, quando as mulheres se ajoelharam e tocaram em minha saia.
      - Voc fez um milagre e nunca se esquecero disso. - Fez uma pausa e acrescentou, serenamente: - Nem eu me esquecerei do que fez por nosso povo.
      Ela corou e abaixou os olhos. Depois, como que fazendo um esforo, o duque falou de outras coisas, at o jantar terminar.
      Voltaram para o salo. Temendo que ele a mandasse para a cama, Syrilla foi abrir a janela e olhar para o jardim.
      Como ainda era cedo, o sol se punha atrs das rvores do parque, como uma mancha vermelha e dourada, refletindo-se no lago.
      Era um belo quadro, e Syrilla ficou de respirao suspensa.
      - Ser que existe lugar mais bonito?
      -  o que muitas vezes me pergunto. Mas, Syrilla, quero falar com voc.
      Havia na voz dele uma nota que fez com que ela se voltasse vivamente e o olhasse, apreensiva.
      Havia tambm algo de solene, e temeu que o duque fosse dizer que ia voltar para Paris.
      Nervosa, juntou as mos, percebendo que ele estava procurando as palavras.
      Dali a um momento, disse:
      - Na primeira noite de nosso casamento, Syrilla, voc me contou que ouviu duas pessoas comentarem que tenho um quarto fechado aqui no castelo.
      Fez uma pausa. Notando que ele esperava uma resposta, ela disse, com uma vozinha amedrontada:
      - Sim, ouvi... isso.
      - Deve estar lembrada de que disse que havia um santurio encerrado no meu corao.
      Olhou de novo para ela, e Syrilla respondeu, num murmrio:
      - Sim, foi o que pensei.
      - Quero que v comigo quele quarto e veja o que h l dentro. , de fato, um santurio ao meu amor.
      Syrilla teve a impresso de que se transformava em pedra. Em vez de seu corao bater acelerado, sentiu como se tivesse ficado gelada, e o gelo ia tomando conta de suas veias, paralisando-a a ponto de impedi-la de pensar.
      Tentou falar, mas no conseguiu.
      - Quer vir comigo, agora? - perguntou o duque, gravemente. Ela inclinou a cabea. Atravessaram a sala lado a lado. Ele parou para pegar uma chave que estava na gaveta da escrivaninha.
      Que significa isto?, pensou Syrilla, desesperada. Por que iria ele, de repente, mostrar-lhe o quarto fechado, dedicado  memria de Zivana, e do qual ela tentava no se lembrar, desde o dia do casamento?
      Imaginou, horrorizada, que talvez ele fosse lhe explicar que Zivana significava tudo e que no podia mais suportar a idia de ter Syrilla como esposa.
      Quer livrar-se de mim!, concluiu, e foi como se centenas de punhais a atingissem.
      Subiram em silncio a escadaria. Depois, o duque a conduziu atravs dos corredores que levavam a uma parte do castelo onde Syrilla nunca tinha ido, por ter ouvido dizer que aqueles quartos no eram usados.
      Quando chegaram ao ponto que ela achou ser o fim da casa, subiram outra escada. Calculou que iam para uma das torres. No fim da escada, havia um patamar, com uma porta. Syrilla viu que estava certa: ali era uma das torres grandes. Havia quatro, uma em cada canto do castelo.
      O duque entregou-lhe a chave e afastou-se para um lado.
      Syrilla pegou-a maquinalmente e, sabendo o que ele esperava, abriu a porta.
      Todo o cime que tinha pela morta pareceu tomar conta dela, deixando-a trmula e com um medo que nunca sentira.
      Que chance tinha de competir com uma mulher que conservara o amor de um homem durante nove anos, depois de morta? Uma mulher que se tornara sagrada e o smbolo de tudo que era desejvel e perfeito, apesar de perdido?
      Incapaz de expressar seus sentimentos e sabendo que era um boneco nas mos do duque, ela enfiou a chave na fechadura.
      A chave girou facilmente, como se tivesse sido untada recentemente.
      Syrilla hesitou por um momento. Depois, como o duque no se movesse, ela empurrou a porta.
      A princpio, ficou surpresa por ver uma sala to grande. O cho era atapetado, e o sol entrava pelas janelas abertas. Mas no era a nica luz, ali.
      Havia velas altas, em castiais de ouro, ardendo de cada lado de um retrato cercado de flores. Eram brancas, e Syrilla sentiu o perfume de lrios, rosas e cravos, quando entrou lentamente na sala, parecendo que seus ps eram de chumbo.
      Mas o retrato iluminado pelas velas no era, como Syrilla esperava, o de uma estranha. Era o retrato dela!
      Reconheceu a pintura que seu pai mais gostava e que havia dado de presente ao duque, por ocasio do casamento.
      Fitou-o, atnita. Depois, com olhar amedrontado, virou-se para o marido.
      Ele estava logo atrs e disse:
      - Voc queria ver o que estava no santurio de meu corao. 
      Por um momento, Syrilla no compreendeu.  Ento o gelo que havia dentro de seu peito comeou a derreter e uma sensao estranha e maravilhosa tomou conta dela.
      O duque disse, com uma voz surpreendentemente spera:
      - Tenho muito que lhe contar, Syrilla. Sente.
      Olhou-o perplexa. Viu uma cadeira de damasco ali perto e sentou, como se suas pernas no mais a suportassem. O duque foi at a janela e apoiou-se no parapeito.
      - No dia do nosso casamento, voc ouviu dizer que amei uma bailarina chamada Zivana Mezlanski e que, quando ela foi estrangulada, mudei para c todos os seus pertences, fazendo um santurio em sua memria.
      Ao dizer isto, no olhou para Syrilla, e sim, para  retrato cercado de flores e de velas. Parecia esperar uma resposta, e ela murmurou:
      - Eu lhe contei que foi o que ouvi.
      - Era verdade. Eu tinha vinte e um anos quando conheci Zivana e achava que era a melhor das bailarinas e a mais bela criatura do mundo. - Apertou os lbios por um instante e continuou: - Apaixonei-me por ela, ou antes, entusiasmei-me como s um jovem idealista pode se entusiasmar por uma mulher de um mundo muito diferente daquele em que ele sempre viveu.
      Syrilla apertou as mos. A dor que havia na voz dele encontrou eco em seu corao.
      - Antes de conhecer Zivana, eu havia conhecido poucas mulheres intimamente, e nenhuma que tivesse a vida que ela levava. Eu a achava perfeita e queria que casasse comigo. - Respirou fundo. - Queria que casssemos imediatamente e que ela viesse morar aqui em Savigne.
      Syrilla ficou imaginando por que o duque lhe contava isto. Sabia que ele sofria por falar no passado e procurou pensar nos sentimentos dele e, no, nos seus.
      - Zivana deu muitas desculpas para no casarmos imediatamente. Tornou-se minha amante, embora na realidade eu achasse isto um sacrilgio contra a grandeza e a santidade de nosso amor. - Fez uma pausa e acrescentou, quase com violncia: - Fui um tolo, Syrilla! Um ignorante, um idiota que nada sabia das realidades da vida!
      Depois, com esforo, ele se acalmou.
      - Zivana me enganava com promessas de que casaria comigo quando terminasse seu contrato no teatro, quando completasse mais uma temporada no bal. Desculpas, sempre desculpas, e eu as aceitava, porque no tinha outra coisa a fazer. Como podia saber que tudo era mentira? Mentiras que eu era bastante tolo para acreditar, sem fazer perguntas!
      Syrilla fez um gesto, como que para consol-lo, mas ele prosseguiu:
      - Voc sabe o que aconteceu. Ela foi estrangulada por Jules Astrid e eu a encontrei cada no cho de seu camarim.
      - Deve ter sido um choque terrvel.
      - Creio que fiquei meio louco. Sim, porque achei que, se eu no tivesse demorado no auditrio depois do espetculo, talvez chegasse a tempo de evitar que fosse assassinada.
      - Voc sabia quem a tinha matado?
      - Um dos outros artistas viu Astrid sair do camarim de Zivana. E, quando ele apareceu, ficou claro que era o assassino. S conseguiram peg-lo seis meses depois. E durante esses seis meses, chorei a morte de Zivana, como a mulher que iria ser minha esposa.
      O duque no tinha olhado para Syrilla desde que comeara sua histria e ela achou que era por no poder suportar que outra tivesse tomado o lugar da amada.
      - Ento, prenderam Astrid - disse o duque. Falava agora rapidamente, como se quisesse acabar logo a histria. - Ele foi a julgamento, e a fiquei conhecendo a verdade.
      - A... verdade?
      - Tinha sido amante de Zivana e era dele que ela gostava, no, de mim!
      - Oh, no!
      - As cartas de Zivana a ele foram lidas no tribunal. Revelaram que a mulher que eu imaginava conhecer nunca tinha existido. Ela era uma russa selvagem, obcecada por um homem rude e brutal, um homem que tratava todas as mulheres como brinquedos e no tinha a mnima considerao por elas, exceto sob o ponto de vista fsico.
      Havia tanta amargura na voz dele, que Syrilla achou insuportvel ouvi-lo.
      No sabia que, mentalmente, ele estava ouvindo de novo a leitura das cartas no tribunal, apresentadas como atenuante para o crime de Astrid.
      Cartas to apaixonadas, to violentas e cheias de desejo, que todos ficaram de respirao suspensa, enquanto o duque se sentia profundamente humilhado.
      Zivana chegara mesmo a se referir a ele, em suas exploses, "Aristide  muito moo e nada entende de amor", escreveu ela, quase com desprezo, "mas  rico, e precisamos de dinheiro. Oh, o sofrimento de estar com ele, quando eu poderia estar com voc! Fico nos braos dele, imaginando com quem estar voc, e quero voc, e todo o meu corpo anseia por voc."
      Havia dezenas de cartas escritas freneticamente por uma mulher que amava um homem com uma paixo que a levava da mais negra depresso at uma selvagem exaltao.
      As cartas indicavam que Astrid batera nela por cime e que Zivana tinha gostado dessa brutalidade.
      Amava-o, mas ao mesmo tempo, como escreveu inmeras vezes, o duque era rico e ela e Astrid precisavam de dinheiro. Teriam que arrancar do duque o mximo possvel.
      Mas o dinheiro no atenuou o cime de Astrid. Num acesso de raiva, depois de brigarem por ela ter outro amante, Astrid a estrangulou.
      O julgamento durou dias, e o duque viveu um verdadeiro inferno. Quando o caso foi considerado um crime passional, e lido o veredito, o duque tinha mudado, de rapaz idealista, para um homem to cnico e to amargo que nada mais havia em seu corao, alm de dio.
      Deu as costas a Syrilla e ficou olhando pela janela da torre, com olhos que nada viam.
      - No vou lhe contar minha vida em Paris durante os ltimos oito anos. Voc no compreenderia, e s Deus sabe que no desejo que compreenda! Mas quero que saiba que nunca fiz o trabalho nobre e caridoso que pensou que eu fazia. Em vez disto, cometi todos os crimes contra a decncia que algum possa imaginar. Eu tinha sido machucado e queria machucar.
      Como a moa nada disse, continuou:
      - Tentei me vingar de Zivana, em todas as mulheres que conheci. Odiava-as, mas usei-as para minhas necessidades. Arruinei a vida de muitas e deixei-as chorando e infelizes. Isto me causava prazer. Como havia sido ferido, ou pelo menos assim o acreditava, queria tambm feri-las.
      O sofrimento dele era to bvio, que Syrilla teve mais percepo disto do que do sentido das palavras que dizia.
      - Meu procedimento foi uma vergonha para o meu nome e para as tradies de minha famlia. As pessoas me censuravam, mas eu ria delas. - Respirou fundo e continuou: - Ningum lhe contou a verdade, Syrilla, mas eu significava tudo o que era baixo e vil, um homem completamente debochado, que atirou o prprio nome na lama.
      Havia tanta autocondenao nestas palavras, que Syrilla ficou com lgrimas nos olhos.
      Evidentemente, ele no esperava que ela respondesse, pois, dali a um momento, falou:
      - Quando minha me me pediu que casasse para continuar a famlia, eu lhe disse que no queria participar da escolha da noiva. Pretendia ficar aqui apenas uma noite e depois voltar para o esgoto de onde sa.
      Agora, Syrilla conseguiu falar:
      - Ento, por que no fez isso?
      - Porque voc era diferente de tudo que eu imaginava que pudesse existir no mundo. Porque voc acreditava em mim, e me trouxe de volta os sonhos que eu pensava ter perdido, h nove anos. Sonhos de uma mulher inocente e pura, que inspirasse um homem tanto espiritualmente, quanto fisicamente.
      - E... depois?
      - Apaixonei-me por voc! Lutei contra isto, pode ficar certa! Lutei contra tudo que voc significava, contra tudo que voc era. Mas, quando a vi lutando com Astrid, quando a carreguei nos braos pensando que estava morta, percebi que meu corao era seu. Soube, ento, que o que senti por Zivana era o entusiasmo de um jovem que no tinha conhecimento da vida, nem noo de valores. O que sinto por voc, Syrilla,  muito diferente. Amo-a como homem, com meu corao e meu esprito, e, se tivesse uma, o que duvido, com minha alma.
      Ele fez um gesto com a mo.
      - Voc enche totalmente minha vida.  o smbolo da perfeio. Mas sei muito bem que sou indigno de voc.
      Syrilla ficou assustada, mas no o interrompeu.
      - Depois da maneira desprezvel com que me comportei nos ltimos anos, no sei se h redeno, e nem mesmo para um pecador arrependido. Eu a quero, Syrilla, eu a desejo ardentemente como esposa, minha esposa de fato. Mas, o que tenho a lhe oferecer? Claro que no sou o cavaleiro que voc julgou que eu fosse, o heri que no existe, a no ser na sua imaginao!
      O duque fez uma pausa e continuou, cinicamente:
      - Nem mesmo tenho certeza se o amor que tenho por voc  puro, sabendo como sei em que criatura desprezvel me tornei! - Respirou fundo e disse, quase como desafio: - A resposta depende de voc. Se me aceitar como sou, juro que procurarei ser o que deseja que eu seja. Mas no vou mentir. No quero que tenha iluses a meu respeito! Se for sensata, se afastar de mim, como de um homem sem remisso, um homem com o qual nada tem em comum. A escolha  sua.
      Houve silncio na sala. Silncio intenso, que Syrilla teve a impresso de que no respirava e de que o duque tambm estava de respirao suspensa. De repente, correu para junto dele.
      O duque no se virou e ouviu uma vozinha trmula dizer:
      - Quer me dizer por que... depois que estvamos casados... embora eu tivesse dito o que sentia... voc no fez de mim... sua esposa, como pretendia?
      - Era o que eu pretendia fazer, mas, na primeira noite, fiquei por demais surpreso com suas palavras. Na segunda noite, quando fui ao seu quarto, voc estava rezando, e no tive coragem de estragar ou ferir uma criatura to pura e to... perfeita.
      - Seria isto que o cavaleiro em quem eu acreditava teria... feito. Mas, assim como voc mudou e disse que seu amor por mim  diferente, tambm o meu mudou.
      O duque ouvia atentamente, mas nada disse.
      - Eu o amo agora, no como o meu Cavaleiro Branco, no como algum dedicado a um ideal, mas como homem! Amo-o, Aristide, e desejo ser sua esposa, sua esposa de verdade... se voc me quiser.
      O duque virou-se.
      - Se a quero! S Deus sabe o quanto a quero! Mas voc pensou bem, Syrilla, em tudo o que eu lhe disse?
      - Por que haveria de pensar? Para mim, voc sempre significou tudo que h de nobre e belo. O que aconteceu no passado no me diz respeito. Quero fazer parte de seu futuro, um futuro em que, se voc me amar como eu o amo, poderemos viver juntos aqui em Savigne.
      Percebeu que os olhos dele se iluminavam.
      - Compreende o que est dizendo? Eu a amo, Syrilla! Amo-a, juro, como jamais amei outra mulher! Mas voc ter que me ensinar de novo as coisas em que acredita e nas quais h muito tempo atrs tambm acreditei. - Em tom quase pattico, acrescentou: - Perdi tudo isto e tenho medo de no conseguir faz-la feliz.
      - S o que quero...  voc!
      Como se no pudesse mais se conter, Syrilla estendeu os braos e o duque puxou-a quase com rudeza, olhando para o rosto que se erguia para ele.
      - Eu a amo! Eu a adoro! Ajude-me a tornar a ser o homem que voc julgou que eu fosse durante todos esses anos, mas que no  digno nem mesmo de beijar o cho que voc pisa.
      - Voc  tudo que sonhei, que desejei! - murmurou Syrilla.
      O duque apertou-a contra o peito. Depois, quase que com medo, seus lbios buscaram os dela.
      Foi um beijo muito suave, o beijo de um homem que est diante de uma coisa sagrada e a trata com reverncia.
      Ento, um ardor mtuo os consumiu e Syrilla sentiu que aquela paixo vinha do fundo de seu corao.
      O duque apertou-a mais ainda, at que no eram mais duas pessoas, e sim, uma s.
      Os lbios de Syrilla correspondiam  insistncia dos dele e uma chama parecia tomar conta de seu ser, um xtase percorrer suas veias, dando-lhe uma sensao que jamais pensou que pudesse existir.
      Eu o amo! Eu o amo!, queria dizer, sem conseguir pronunciar tais palavras.
      Sabia apenas que o duque a mantinha prisioneira e que, ao mesmo tempo, ele se entregava a ela com seus beijos, enquanto tambm ela se entregava totalmente.
      Quando finalmente o duque ergueu a cabea e viu o olhar luminoso de Syrilla e o rosto corado de felicidade, deu um suspiro, que era ao mesmo tempo de triunfo e de contrio.
      - Voc  to linda, minha querida, to perfeita! J lhe disse que sou indigno de voc, mas amo-a to apaixonadamente, que no posso perd-la.
      - Eu perteno a voc...  h nove anos.
      - Por que eu no soube disto? Por que no senti o seu amor me alcanar, para poder me salvar de mim mesmo?
      - Como voc sofreu tanto, nosso amor ser mais precioso agora, mais maravilhoso.
      O duque apertou-a contra o peito.
      - Eu podia t-la perdido! Se aquele miservel a tivesse assassinado como pretendia, nada mais me restaria, a no ser morrer na degradao, e o mais depressa possvel.
      - Morrer no era o seu destino... nem o meu. Creio que  porque voc tem muita coisa a fazer.  necessrio, aqui. Seu povo precisa de voc. Eu preciso de voc. Quero estar a seu lado, por toda a vida!
      - E assim ser. Mas, minha bem-amada, voc precisa me ajudar, para que os crimes que cometi possam ser esquecidos e para que todos respeitem de novo o nome de Savigne porque voc o usa e o valoriza.
      - Faremos juntos tudo que esperam de ns. Mas...  verdade que me ama?
      Foi o apelo de uma criana que quer ser tranqilizada. O duque beijou-lhe a testa e depois os olhos.
      - Vou precisar de toda uma existncia para lhe dizer o quanto a adoro e para faz-la feliz, como  o meu desejo. Mas agora, querida, precisa obedecer s ordens do mdico e ir para a cama.
      - Quero ficar com voc... No quero deix-lo. 
      O duque sorriu e perguntou:
      - Quem disse que vou deix-la?
      O corao de Syrilla pulou de alegria. Depois, como se tivesse medo de no ter compreendido bem, perguntou:
      - Voc quer dizer...?
      - Quero dizer que  minha mulher. E, minha querida, no h mais barreiras, nem segredos, nem amor oculto. Estaremos juntos, como foi determinado desde o incio do mundo, e eu a ensinarei a me amar como eu a amo.
      -  o que eu... quero - murmurou Syrilla. - Foi por isto que rezei, meu querido, meu maravilhoso Aristide.
      - Ento, o que estamos esperando? 
      Ao dizer isto, tomou-a nos braos.
      Beijando-a apaixonadamente e carregando-a junto ao corao, desceu a escada da torre, deixando a porta aberta atrs deles.

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      QUEM  BARBARA CARTLAND?
      As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais, E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
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